O reitor da Universidade Pedagógica, Jorge Ferrão, advertiu que “as desigualdades sociais, os casamentos prematuros e a pobreza estão a hipotecar o futuro de milhares de crianças em Moçambique”, deixando-as num cenário de exclusão e fragilidade.
Falando esta terça-feira, durante a conferência anual sobre acesso a serviços públicos, realizada sob o lema “Deveres e Direitos Humanos”, Ferrão sublinhou que “estes problemas constituem barreiras significativas para garantir um futuro mais justo e próspero às novas gerações”.
Segundo o académico, “não podemos continuar a assistir impávidos a uma realidade que rouba às crianças o direito de crescerem saudáveis, educadas e protegidas”.
Ferrão destacou que a falta de comprometimento de diversos actores sociais na criação de mecanismos eficazes para o bem-estar infantil “está a minar o futuro do país, impedindo que muitas crianças alcancem o seu pleno potencial”.
Para o reitor, “não se trata apenas de uma questão humanitária, mas de uma estratégia de desenvolvimento nacional: sem crianças bem cuidadas, não haverá adultos capazes de liderar o progresso de Moçambique”.
Durante a sua intervenção, defendeu a necessidade de um esforço coordenado entre instituições públicas, privadas e a sociedade civil, “porque o desafio de proteger as nossas crianças é responsabilidade de todos”.
Entre as prioridades, Ferrão apontou a urgência de garantir alimentação de qualidade para crianças dos zero aos cinco anos de idade, frisando que “sem nutrição adequada, não há crescimento saudável nem capacidade de aprendizagem no futuro”.
O académico alertou que “a desnutrição nesta fase pode provocar danos irreversíveis, limitando o desenvolvimento cognitivo e físico e comprometendo toda a vida adulta”.
A conferência contou também com a participação da presidente da Visão Mundial, Maria Carolina, que reforçou a necessidade de intervenções consistentes. “Desde os anos 2000, temos trabalhado com parceiros para combater a desnutrição e as desigualdades, mas o desafio permanece enorme”, disse.
Carolina sublinhou que, apesar dos avanços, “há um longo caminho a percorrer” e que “não basta ter projectos isolados, precisamos de soluções estruturais que ataquem as causas profundas da pobreza infantil”.
A dirigente enumerou ainda problemas como a persistência da desnutrição crónica, o acesso desigual à educação e a fragilidade dos sistemas de proteção social como obstáculos que “continuam a aprisionar as crianças num ciclo de vulnerabilidade”.
Durante três dias, decisores políticos, representantes da sociedade civil, líderes comunitários e especialistas irão debater “mecanismos práticos para garantir o bem-estar das crianças mais vulneráveis”, segundo a organização do evento.
Um dos temas em destaque será a criação de redes de proteção comunitária, que permitam identificar precocemente casos de abuso, negligência e casamentos prematuros.
Outro ponto central da agenda é o reforço da fiscalização para combater uniões forçadas, que ainda afetam milhares de raparigas em várias províncias do país.
A conferência irá igualmente abordar a ampliação de programas de alimentação escolar como ferramenta para melhorar a nutrição e incentivar a frequência das aulas.
Carolina afirmou que espera “medidas mais concretas e compromissos firmes” saiam desta conferência, defendendo que “cada ano perdido significa mais crianças privadas de um futuro digno”.
Ferrão encerrou a sua intervenção com um apelo direto: “O futuro de Moçambique depende da capacidade de proteger, nutrir e educar as crianças de hoje. Se falharmos nesta missão, estaremos a comprometer o destino da nação”.
A expectativa dos organizadores é que as conclusões do encontro influenciem políticas públicas e mobilizem mais recursos para intervenções concretas, criando um impacto duradouro na vida das crianças moçambicanas.







