Com veículos militares posicionados em pontos estratégicos e soldados visíveis nas ruas da capital, o Uganda realiza esta quinta-feira eleições presidenciais num ambiente marcado pela desconfiança e pelo medo. Em Kampala, a tensão é evidente e muitos cidadãos receiam que o processo eleitoral seja acompanhado por violência e repressão.
Desde a independência, em 1962, o país nunca conheceu uma transição pacífica de poder. Esse histórico pesa no espírito dos eleitores, que encaram o dia da votação com apreensão, num contexto em que a presença das forças de segurança é interpretada por muitos como um sinal de intimidação.
“Há pessoas a serem espancadas nas ruas, sobretudo aquelas que apoiam a oposição”, denuncia Maria Taremwa, residente em Kampala. A cidadã questiona ainda as orientações das autoridades para que os eleitores abandonem os locais de voto após sufragar. “As pessoas sentem que devem ficar para proteger o seu voto”, afirma, temendo igualmente um eventual bloqueio da Internet.
O receio de instabilidade é partilhado por outros moradores da capital. Jacob Nuwashumbusha admite que não espera necessariamente uma explosão imediata de violência, mas alerta para o clima de tensão. “Estamos sentados sobre um barril de pólvora. Os líderes políticos devem apelar à calma dos seus apoiantes”, defende.
No centro do processo está o Presidente Yoweri Kaguta Museveni, que concorre a um novo mandato. Com 81 anos, Museveni governa o Uganda desde 1986 e procura agora o seu sétimo mandato, viabilizado por alterações constitucionais que eliminaram os limites de idade e de duração do poder presidencial.
Museveni apresenta-se como garante da estabilidade nacional. No discurso de Ano Novo, defendeu a actuação firme das forças de segurança e classificou como “legal e não letal” o uso de gás lacrimogéneo contra o que chamou de “oposição criminosa”.
O principal adversário do chefe de Estado é Robert Kyagulanyi Ssentamu, conhecido como Bobi Wine. O músico de 43 anos e líder da Plataforma Nacional de Unidade mobiliza sobretudo o eleitorado jovem e afirma que estas eleições representam mais do que uma simples disputa política. “Não é apenas mais uma eleição, é uma revolução”, declarou durante a campanha.
Bobi Wine já concorreu em 2021, quando obteve cerca de 35 por cento dos votos, segundo os resultados oficiais, num processo amplamente contestado. Desta vez, volta a enfrentar um ambiente hostil, com relatos de violência contra apoiantes e jornalistas.
Ao todo, oito candidatos foram autorizados a concorrer. Figuras conhecidas da oposição, como Kizza Besigye, ficaram fora da corrida devido a detenções ou processos judiciais. A comissão eleitoral indica que cerca de 21,6 milhões de eleitores estão registados para votar.
A credibilidade do processo é um dos principais pontos de discórdia. “Há sérias dúvidas de que a eleição seja livre e justa. A integridade da comissão eleitoral é fortemente questionada”, afirma o cientista político Frederick Golooba-Mutebi, lembrando que quase todas as eleições no país foram acompanhadas de acusações de fraude.
Organizações de direitos humanos reforçam essas preocupações. A Amnistia Internacional denuncia uma “campanha de repressão brutal”, com recurso a gás lacrimogéneo, detenções arbitrárias e maus-tratos a opositores. Bobi Wine afirmou à Associated Press que “os militares assumiram amplamente o controlo das eleições”, referindo a morte de pelo menos três dos seus apoiantes.
O Governo rejeita as acusações e insiste que a prioridade é garantir a ordem pública. Para Museveni, estabilidade e desenvolvimento são indissociáveis. Ainda assim, analistas consideram improvável uma mudança de poder. “Museveni nomeia a Comissão Eleitoral e dispõe de vastos recursos de campanha”, observa Adolf Mbaine, para quem uma alternância só seria possível com uma oposição unida em torno de um único candidato.







