O Irão atravessa uma das fases mais tensas dos últimos anos, com o país a ser sacudido por manifestações renovadas contra o regime dos aiatolas e pela deterioração acelerada da situação económica.
Em pouco mais de uma semana, os protestos já fizeram mais de 500 mortos e levaram ao bloqueio quase total da internet por mais de 80 horas.
As autoridades iranianas acusam os Estados Unidos de tentarem explorar a instabilidade interna como pretexto para uma intervenção externa.
Esta segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, afirmou que os protestos se tornaram violentos para justificar uma ação militar norte-americana, garantindo que o Estado mantém controlo total da situação.
As declarações de Teerão contrastam com as palavras de Donald Trump, que admitiu contactos da liderança iraniana com a sua administração para marcar uma reunião.
O presidente norte-americano deixou, contudo, claro que essa abertura pode ter surgido tarde demais, mantendo em cima da mesa a possibilidade de agir antes de qualquer encontro diplomático.
Trump afirmou estar a analisar opções “muito fortes”, sublinhando que os militares norte-americanos acompanham de perto a evolução dos acontecimentos. A retórica dura reacende o receio de um erro de cálculo num contexto já marcado por elevada tensão política e social.
Segundo o Wall Street Journal, Trump terá mesmo considerado uma ação militar, embora figuras-chave da administração defendam uma abordagem diplomática. Esta divisão interna reflete a complexidade do dossiê iraniano e os riscos associados a qualquer escalada.
Analistas consideram que a combinação de ameaças e abertura ao diálogo visa pressionar Teerão, mas pode fortalecer alas mais radicais do regime. A perceção de negociação sob coerção tende a reduzir o espaço para compromissos duradouros.
O agravamento da crise levanta também receios sobre o futuro do programa nuclear iraniano. Especialistas alertam que o regime pode ser levado a reforçar esse programa como forma de dissuasão face aos EUA e a Israel, aumentando o risco de novos confrontos militares.
Apesar das comparações frequentes com a Venezuela, vários analistas sublinham que o Irão apresenta um quadro muito distinto.
O país dispõe de um exército convencional robusto, redes regionais de influência e capacidade para atingir interesses norte-americanos em todo o Médio Oriente.
Uma intervenção direta dos EUA teria custos elevados e poderia desencadear uma escalada regional difícil de controlar. Por isso, Washington parece apostar, para já, numa estratégia de pressão calibrada, combinando sanções, ameaças e diplomacia indireta.
No plano europeu, a repressão dos protestos levou a uma reação firme. A presidente do Parlamento Europeu anunciou a proibição de entrada de representantes diplomáticos iranianos na instituição, como sinal político contra a violência exercida sobre os manifestantes.
Ao mesmo tempo, Teerão admite estar disponível para retomar negociações nucleares, desde que estas ocorram sem ameaças ou imposições externas. A disposição para o diálogo surge num contexto de forte pressão interna e isolamento crescente.
No curto prazo, o cenário permanece incerto. A continuação dos protestos, a resposta repressiva do regime e a retórica agressiva de Washington formam uma combinação volátil, com riscos tanto para a estabilidade do Irão como para o equilíbrio político da região.







