HISTÓRICA ENTRE MOÇAMBIQUE E PORTUGAL
”Obra reflete sobre os laços coloniais, a luta de libertação e o legado que ainda persiste na educação e na identidade nacional”
A cidade da Beira acolheu, na última quinta-feira, o lançamento da mais recente obra do escritor e académico moçambicano Nelson Moda, intitulada “Chibalu – Quando Moçambique era a Província”.
Com 146 páginas e publicada pela Editora Funda, a obra propõe uma leitura lúcida, crítica e, ao mesmo tempo, conciliadora da história colonial entre Moçambique e Portugal.
O livro não se limita à análise do passado, mas convida as novas gerações a refletirem sobre o sofrimento do povo moçambicano e a necessidade urgente de reposicionar a cultura e a identidade nacional.
Com uma abordagem que procura promover a reconciliação entre os dois países, Nelson Moda escreve sobre os “laços positivos” que marcaram a convivência entre Moçambique e Portugal, mesmo no contexto da colonização. O autor evita o maniqueísmo histórico, e, ao invés disso, propõe uma visão mais matizada, onde a dor da colonização convive com a necessidade de compreensão mútua, diplomacia e superação dos traumas colectivos.
Durante o evento, o autor explicou que a obra não pretende reabrir feridas do passado, mas sim iluminar os pontos cegos da história, aqueles que ainda hoje se fazem sentir nas estruturas sociais, económicas e educativas do país. “A colonização foi um projecto que durou cinco séculos. Foram quinhentos anos de presença portuguesa que exigiram vários tipos de luta, culminando com os dez anos da luta armada de libertação nacional, de 1964 a 1974. Mas antes dessa luta houve muitas outras formas de resistência e sofrimento”, referiu o escritor.
Moda lembrou que o processo de construção da independência de Moçambique foi longo e complexo, e que o Chibalu surge como uma homenagem à resiliência do povo moçambicano e um alerta à juventude sobre os perigos da alienação cultural. “A reconciliação com Portugal deve acontecer com base na verdade e no respeito mútuo, mas a reconciliação connosco próprios é igualmente urgente. O nosso orgulho como povo começa no reconhecimento do nosso valor cultural, linguístico e histórico”, sublinhou.
Um dos momentos mais marcantes do lançamento foi a intervenção do apresentador da obra, o empresário Félix Machado, que destacou a dimensão educativa da obra. Para ele, o livro traz à tona uma crítica profunda ao sistema educativo herdado do colonialismo, que — segundo frisou — ainda hoje mantém traços de exclusão e alienação. “O sistema colonial era uma prisão disfarçada. E hoje, infelizmente, muitas vezes a educação continua a reproduzir desigualdades, em vez de ser uma ferramenta de emancipação”, afirmou Machado.
A crítica foi reforçada pelo próprio autor, que questionou o distanciamento crescente entre as crianças urbanas e as línguas nacionais. “Vemos cada vez mais jovens, sobretudo nas cidades, que não conseguem pronunciar uma única palavra em línguas moçambicanas. E o mais grave é que muitos pais proibem os filhos de falar as suas línguas maternas. Isso é preocupante. Uma educação que não valoriza a cultura local não emancipa, apenas perpetua um presente colonial”, advertiu Nelson Moda.
Para o analista político Pedrito Cambrão, presente na cerimónia, a obra é um alerta oportuno num momento em que Moçambique se aproxima das celebrações dos 50 anos da independência nacional. Segundo ele, este é um momento propício para uma reflexão crítica sobre o passado e para a construção de um futuro diferente. “Se quisermos viver bem os próximos 50 anos, temos de revisitar o nosso passado com coragem e lucidez. Precisamos aprender com os erros e evitar repeti-los. A independência não é um ponto fixo; é um processo contínuo, uma tarefa diária”, disse Cambrão.
Neste sentido, o jornalista Jorge Malangase também destacou a importância do papel da juventude. “A independência não é algo garantido para sempre. Ela precisa ser alimentada com consciência, participação e responsabilidade. Temos que torná-la inadiável, inalienável e cada vez mais robusta”, defendeu o jornalista, apelando a um envolvimento mais ativo da nova geração na construção de uma sociedade inclusiva e soberana.
Chibalu – Quando Moçambique era a Província é a segunda obra de Nelson Moda, sucedendo ao livro Sirico: Vozes de Págen, o Sambique, lançado em 2022, também na cidade da Beira. Com esta nova publicação, o autor afirma-se como uma das vozes intelectuais mais comprometidas com a reinterpretação da história e o resgate da memória coletiva moçambicana, sem abrir mão da crítica construtiva e do apelo à transformação social.
A obra já está disponível nas principais livrarias do país e poderá, segundo a Editora Funda, ser também distribuída em Portugal, numa ação simbólica de reconciliação e intercâmbio cultural entre os dois países ligados por um passado comum.







