Empresários nacionais acusam favorecimento político, adjudicações sem concurso e risco de falência em cadeia no sector de eventos
Empresas moçambicanas que actuam há décadas na organização e produção de eventos corporativos, governamentais e culturais denunciam uma alegada captura do sector por parte do Grupo Evolution Moçambique, pertencente a empresários portugueses. Segundo relatos recolhidos junto de produtores, associações e fontes do sector jurídico, a empresa tem vencido ou recebido por adjudicação directa a maioria dos grandes eventos públicos e privados, criando um ambiente de concorrência desigual que estaria a empurrar dezenas de operadores nacionais para o colapso financeiro.
De acordo com os empresários, a Evolution Moçambique seria alegadamente beneficiada por apadrinhamento de figuras influentes ligadas ao partido no poder, incluindo antigos governantes e gestores de empresas públicas. As acusações apontam para a entrega recorrente de produções sem concurso público, prática que, a confirmar-se, viola princípios de transparência, igualdade de oportunidades e boa governação.
Enquanto a Evolution concentra grandes contratos, empresas moçambicanas relatam dificuldades crescentes para honrar compromissos básicos: rendas, salários, manutenção de equipamentos e prestações bancárias. Entre as entidades que afirmam não conseguir competir em condições justas estão associações e fornecedores do sector, como a Associação dos Empresários e Promotores de Eventos e Espetáculos (ADEPEE), a Federação Moçambicana das Indústrias Culturais e Criativas (FEMICC), empresas de audiovisuais, tendas, catering, decoração e outras.
Uma fonte que representa produtores nacionais afirma que o grupo teria operado anteriormente com a designação S&R (Santos & Reis Estruturas e Eventos), antes de adoptar o actual nome. “A estratégia passa por prazos irrealistas para concursos quando concorremos nós, e prazos alargados quando o trabalho já está destinado à Evolution”, disse.
Um advogado ouvido recorda um caso antigo envolvendo adjudicações directas ao então S&R, no qual uma ex-dirigente do IPEX foi condenada por irregularidades. “Há um padrão que levanta sérias questões sobre concursos, contratos e eventuais pagamentos indevidos”, afirmou, defendendo escrutínio institucional.
Os empresários apontam ainda para a alegada concentração de eventos estratégicos em instituições como a HCB -Hidroeléctrica de Cahora Bassa, o Banco de Moçambique, o Centro de Conferências Joaquim Chissano, governos provinciais e a APIEX. A FACIM, principal vitrine económica do país, é citada como exemplo emblemático: produtores alegam que a Evolution domina desde a montagem de pavilhões à produção técnica, arrecadando valores superiores aos da própria entidade promotora.
Empresários alertam para o impacto social: cada empresa emprega dezenas de trabalhadores directos e centenas de colaboradores sazonais. “Não somos contra investimento estrangeiro sério. Queremos regras claras, concursos públicos reais e igualdade de acesso”, disse uma empresária. Outro produtor questiona: “Se não podemos ir a Portugal conquistar este mercado, por que aqui tudo se concentra num só grupo?”
Diante das denúncias, os produtores defendem uma investigação independente por parte do Gabinete Central de Combate à Corrupção e demais órgãos de fiscalização. “Moçambique é nosso país. Queremos trabalhar, empregar e contribuir. Sem transparência, o sector morre”, concluem.
As alegações apresentadas reflectem denúncias de fontes do sector e devem ser apuradas pelas autoridades competentes, garantindo-se o contraditório e o respeito ao Estado de Direito.







