Em Moçambique, viver com albinismo continua a significar estar sujeito a vários riscos de saúde a cada nascer do sol, e o cancro da pele é um destes riscos que a pessoa com albinismo se vê obrigada a combater todos os dias, uma tarefa que não tem sido fácil, principalmente num país com elevados níveis de radiação solar.
O protector solar é um dos mecanismos essenciais na luta contra o cancro da pele, entretanto, o seu acesso tem sido um desafio, sobretudo quando os preços nas prateleiras das farmácias nao ajudam as pessoas com albinismo de pouca renda ou em situação de vulnerabilidade e, por outro lado, pelas dificuldades de inclusão na sua distribuição.
Segundo organismos das Nações Unidas, estima-se que Moçambique tenha entre 20 a 30 mil pessoas com albinismo, embora não sejam oficialmente consolidadas, organizações da sociedade civil admitem que o número pode ser superior, sobretudo em zonas rurais onde o registo é mais difícil e o acesso a serviços de saúde continua desigual.
Para Milton Mundlovo, Presidente da Associação Amor à Vida, esta realidade traduz-se num problema de saúde pública que exige respostas estruturais e permanentes. Dada a sua fragilidade na produção de melanina suficiente para se proteger dos raios solares, o protector solar deve ser encarado como uma necessidade médica diária e não como um produto de cosmética.
“Não estamos a falar de um luxo. Estamos a tratar de uma questão de sobrevivência”, afirmou Mundlovo referindo que este grupo vulnerável vive a sua sorte em Moçambique.
Casos clínicos preocupam profissionais de saúde
Nos últimos anos, campanhas médicas realizadas em várias províncias têm revelado uma realidade preocupante que muitas vezes não são conhecidas, mas que mexem com sensibilidades humanas que vivem nesta condição.
Em Outubro de 2024, mais de 60 pessoas com albinismo foram submetidas a cirurgias para remoção de tumores cutâneos no Hospital Central de Maputo, no âmbito de uma missão médica internacional.
Os pacientes faziam parte de um universo de centenas de pessoas acompanhadas em consultas dermatológicas especializadas. Em diferentes unidades sanitárias, têm sido também identificados casos em fases avançadas da doença, o que reduz significativamente as possibilidades de tratamento eficaz.
Profissionais de saúde alertam que muitos destes casos poderiam ser evitados com medidas de prevenção simples, como o uso regular de protector solar e protecção física da pele.
Prevenção ainda longe da realidade de muitos
Apesar das recomendações médicas, a realidade no terreno mostra que o acesso ao protector solar continua fora do alcance de muitas famílias. O custo do produto no mercado é frequentemente elevado face aos rendimentos médios, sobretudo em famílias com a situação de económica vulnerável.
Nas zonas rurais, o problema agrava-se com a escassez de disponibilidade e com a falta de informação sobre os riscos associados à exposição solar. Para Milton Mundlovo, esta combinação de factores cria um cenário de risco permanente e em grande parte catastrófico por comprometer a integridade financeira para aquisição do produto que tornou-se um colete à prova de bala.
“Há pessoas que simplesmente não conseguem comprar protector solar com regularidade. E isso tem consequências directas na sua saúde”, referiu.
Os especialistas defendem que a protecção das pessoas com albinismo deve ser feita de forma combinada. Além do protector solar, recomendam o uso de chapéus de abas largas, roupas de mangas compridas e a limitação da exposição solar nas horas de maior intensidade.
Ainda assim, sublinham que nenhuma destas medidas substitui o protector solar. Mas acreditam que um acompanhamento ideal ou a margem das necessidades e capacidades hospitalares, muitos casos poderiam reduzir.
“É um elemento central na prevenção do cancro da pele. Sem ele, o risco mantém-se muito elevado”, referiu em anonimato um profissional de saúde ligado aos programas dermatológicos.
E por essa razão, a Associação Amor à Vida defende a revisão da actual classificação do protector solar, que continua a ser tratado como produto cosmético.
Segundo Milton Mundlovo, essa classificação limita o acesso e dificulta a criação de políticas públicas mais eficazes. “Enquanto for considerado cosmético, o acesso continuará dependente do mercado. Tem de ser tratado como produto essencial de saúde”, defendeu.
A organização propõe a sua inclusão na lista de medicamentos essenciais do Sistema Nacional de Saúde, prevendo que o Estado passe a adquirir protector solar em grande escala e a distribuí-lo através dos hospitais e centros de saúde.
“Qualquer pessoa com albinismo devia poder levantar protector solar numa unidade sanitária, tal como acontece com outros medicamentos essenciais”, afirmou Mundlovo.
Organizações no terreno procuram colmatar falhas
A Associação Amor à Vida tem desenvolvido campanhas de sensibilização, rastreio e apoio em várias províncias do país. As acções incluem a distribuição de protector solar, embora insuficiente face às necessidades existentes.
Milton Mundlovo reconhece as limitações do trabalho realizado.
“Fazemos o que é possível com os recursos que temos, mas não chega para responder a todo o país”, admitiu.
Para o dirigente associativo, o desafio passa por uma mudança de abordagem das políticas públicas onde a prevenção deve ser encarada como investimento em saúde e não como despesa.
E enquanto o debate continua, milhares de pessoas com albinismo em Moçambique permanecem expostas diariamente a um risco que, segundo especialistas e activistas, poderia ser significativamente reduzido com medidas relativamente simples e sustentadas.
Entre as medidas, destaca-se a disponibilização regular de protector solar, uma medida apontada como urgente e decisiva para travar o avanço do cancro da pele nas pessoas com albinismo.




