O acesso à habitação continua a ser um dos principais desafios da juventude moçambicana. E na tentativa de responder a esta realidade, o Governo lançou em Abril de 2025 o projecto habitacional “Phoenix”, uma iniciativa que, segundo o Presidente da República, Daniel Chapo, pretende facilitar o acesso dos jovens a uma habitação digna e contribuir para a redução do défice habitacional no país.
Durante o lançamento do empreendimento, Daniel Chapo disse se tratar da prossecução de um compromisso assumido durante a sua campanha eleitoral e que os apartamentos serão disponibilizados em condições consideradas acessíveis para jovens e famílias de rendimento médio.
O projecto se junta a outras iniciativas do Governo que visam tornar o “sonho de ter uma casa própria” para o jovem moçambicano uma realidade. Os anos passam, as promessas sao renovadas mas a realidade continua imutável.
Afinal, a habitação é acessível para quem?
Apesar das promessas governamentais, especialistas e observadores questionam se os novos empreendimentos estarão efectivamente ao alcance da maioria dos jovens moçambicanos.
Uma das principais preocupações prende-se na ausência de informações sobre os preços finais dos apartamentos, os critérios de acesso e o valor das prestações mensais. Para os mais críticos, sem estes elementos torna-se difícil avaliar o verdadeiro alcance social do projecto.
Os analistas alertam igualmente para a diferença entre os rendimentos médios da juventude e os custos normalmente associados à aquisição de habitação através de crédito bancário. Segundo esta perspectiva, muitos jovens trabalhadores dificilmente conseguiriam suportar prestações elevadas.
Há ainda receios de que os empreendimentos beneficiem sobretudo cidadãos com maior capacidade financeira, deixando de fora maior número de jovens em situação de baixa renda.
Os especialistas defendem que o combate ao défice habitacional exige também soluções ligadas ao acesso ao crédito, redução dos custos de construção, combate à especulação imobiliária e aumento da oferta de terrenos urbanizados.
Viver na casa de renda continua a ser a solução
A realidade vivida por muitos jovens foi retratada por Beldino Matsovele, residente do bairro Patrice Lumumba, na cidade de Maputo. Natural da província de Inhambane, Matsovele contou que se mudou para a capital em busca de emprego e, perante a falta de alternativas, viu-se obrigado a recorrer ao arrendamento para garantir alojamento para a sua família.
“Não tive outra opção senão arrendar”, confessou o jovem que actualmente, vive com a esposa e o filho numa residência do tipo 1 (quarto e sala), pela qual paga três mil meticais ao final de cada mês.
Segundo explicou, arrendar uma casa compromete significativamente o seu rendimento e se agrava com as despesas inerentes ao transporte e alimentação.
O entrevistado revelou que já tentou poupar para construir uma casa própria, mas as necessidades do dia-a-dia acabam por absorver os recursos disponíveis.
Como alternativa, participa em esquemas de poupança rotativa, conhecidos como xitique, utilizando os valores recebidos para comprar gradualmente materiais de construção.
Na sua avaliação, possuir uma habitação própria tornou-se um objectivo difícil de alcançar, não só para ele, mas para grande parte dos jovens em Moçambique, particularmente da capital do país, apontando como factores os baixos salários e ao aumento constante do custo de vida.
Há necessidade de tornar os projectos habitacionais mais inclusivos
O analista João Fidalgo alerta para um aspecto que tem vindo a comprometer os projectos direcionados aos jovens no país, em que o acesso a elas deia muito a desejar, chegando a afirmar que a “nossa política habitacional não é inclusiva”.
Segundo explicou, muitos jovens encontram-se desempregados ou inseridos no sector informal, realidade que dificulta o acesso ao crédito habitacional e ao financiamento exigido pelos programas de habitação.
Fidalgo recordou que iniciativas anteriores, como o projecto Casa Jovem, exigiam rendimentos superiores a 25 mil meticais para acesso às residências, um requisito que, na sua opinião, exclui uma grande parcela dos jovens do país.
O analista apontou igualmente para a desconfiança gerada por experiências anteriores, referindo críticas relacionadas com a qualidade das construções e os elevados custos observados em alguns projectos habitacionais implementados no passado.
Como alternativa, o nosso entrevistado propõe que o Governo adopte uma estratégia mais inclusiva, investindo também em projectos habitacionais nas zonas de expansão urbana, onde os terrenos são mais acessíveis e permitem que jovens com menores rendimentos construam gradualmente as suas residências.
Para João Fidalgo, além da construção de novas casas, torna-se necessário melhorar as condições de financiamento, reduzir os custos habitacionais e criar mecanismos que permitam aos jovens transformar o sonho da casa própria numa realidade. (Celso Chinai)





