Muitos por falta de condições financeiras para custear viagens e outros pela demanda de transporte que não corresponde ao número de passageiros e bens, estrangeiros e nacionais vítimas de xenofobia na vizinha África do Sul passam dias e noites a céu aberto nos principais terminais de transporte interprovincial e internacional da cidade de Maputo.
A equipa do ISOCNews constatou a situação no Terminal Rodoviário Interprovincial da Junta, na cidade de Maputo, onde dezenas de famílias e viajantes permaneciam junto dos seus electrodomésticos, mobílias, malas e outros pertences, aguardando uma oportunidade para seguir viagem. No local, homens, mulheres e crianças improvisam a estadia enquanto esperam por transporte e apoio para regressarem aos seus destinos.
Entre os moçambicanos, a preocupação é menor pelo facto de já se encontrarem em território nacional. Ainda assim, existem alguns que esperam percorrer centenas de quilómetros para chegar às suas províncias de origem, como Tete, Zambézia, Manica, Sofala e outras regiões distantes da cidade de Maputo. A limitação de transporte e os custos das viagens fazem com que permaneçam vários dias nos terminais.
Segundo a Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Manuela Lucas, cerca de mil moçambicanos já regressaram às suas residências com o apoio das missões diplomáticas e consulados, em coordenação com o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) e outras entidades moçambicanas e sul-africanas.
Malawianos relatam o drama vivido na África do Sul
Entre os estrangeiros que aguardam transporte encontra-se Moles, cidadão malawiano que permanece no terminal com a esposa, filhos e alguns bens pessoais. O entrevistado afirmou que o desejo da família é regressar ao Malawi, embora as dificuldades financeiras e logística estejam a atrasar a viagem. “Não temos previsão do dia que vamos para casa, mas estamos a tentar o mais rápido possível para o quanto antes chegar”, disse.
Moles contou que a família já permanece há cerca de três dias no terminal, depois de abandonar a África do Sul na sequência dos actos de violência dirigidos contra cidadãos estrangeiros. Segundo explicou, preferia aguardar em condições mais dignas, sobretudo por causa da saúde da sua família, mas os recursos de que dispõe não são suficientes para custear alojamento e transporte.
“Para arrendar [um quarto] é preciso dinheiro, por isso preferimos ficar aqui. Ainda temos que pagar comida e água. Mas isso porque na África do Sul a situação está pior. Corríamos risco até de morrer”, lamentou.
Também proveniente do Malawi, Juel Adam descreveu momentos de tensão vividos durante os ataques xenófobos. Segundo relatou, presenciou espancamentos, homicídios e a destruição e apropriação de bens pertencentes a estrangeiros. “Eu e os meus amigos fomos ameaçados, mas conseguimos escapar. Graças a Deus encontramos logo um carro que nos levou até à fronteira de Ressano”, recordou.
Apesar de contar com apoio financeiro da família para concluir a viagem, Adam afirma que a fuga obrigou-o a abandonar quase todos os seus bens. “Tive de deixar a minha geleira, o televisor, cama, cadeiras e até algumas roupas por causa da pressa”, contou.
Viajar para a África do Sul tornou-se uma actividade de elevado risco
A pressão sobre os transportadores internacionais também aumentou significativamente. O motorista moçambicano Alfredo Mundlovo afirma que, nos últimos dias, viajar para a África do Sul tornou-se uma actividade de elevado risco, ao mesmo tempo que o número de pessoas a regressar supera largamente a capacidade disponível.
Segundo explicou, actualmente os veículos regressam praticamente lotados, transportando passageiros e um elevado volume de bagagens, situação que obriga muitos viajantes a permanecer dias nos terminais à espera de lugar.
Perante este cenário, o secretário de Estado da Província de Maputo, Henriques Bongece, assegurou que o Governo continua a prestar assistência às vítimas, tanto moçambicanas como estrangeiras, facilitando o encaminhamento para as respectivas zonas de origem.
Ao mesmo tempo, apelou aos cidadãos moçambicanos que regressam ao país para apostarem nas oportunidades existentes em território nacional. “Estamos a receber as pessoas e estamos a direcioná-las para as suas zonas de origem. O apelo que deixamos é que olhem para as nossas terras, para as nossas empresas, para os nossos rios e para as nossas praias. Aquilo que se fazia na África do Sul também pode ser feito aqui em termos de trabalho”, afirmou. (Tomás Pindela)



