A escassez de água potável continua a marcar o quotidiano dos munícipes da Vila Municipal de Metangula, no distrito do Lago, província do Niassa. Apesar de estar situada nas margens do Lago Niassa, a terceira maior reserva de água doce de África e a sétima do mundo, a população enfrenta dificuldades no acesso à água tratada, sendo obrigada a recorrer a poços caseiros e outras fontes de qualidade duvidosa. Os moradores consideram que a situação é um verdadeiro “calcanhar de Aquiles” para o município e alertam para os riscos que o consumo de água imprópria representa para a saúde pública.
A realidade vivida na região verifica-se logo nas primeiras horas da manhã, onde os poços comunitários tornam-se palco de longas filas e disputas entre residentes que procuram garantir alguns recipientes de água para as necessidades básicas. Nas zonas mais afastadas e montanhosas da vila, o cenário é ainda mais preocupante, obrigando mulheres, crianças e idosos a percorrerem longas distâncias para encontrar água para beber.
O cenário ocorre numa altura em que os munícipes recordam que, há cerca de dez anos, foi lançado um projecto de construção e expansão do sistema de abastecimento de água potável. Na altura, a promessa era de reduzir a dependência da água do lago e dos poços caseiros, assegurando o fornecimento de água canalizada aos 12 bairros da vila e acompanhando o crescimento urbano.
A expectativa transformou-se em frustração e segundo os residentes ouvidos pela nossa reportagem, as obras nunca produziram os resultados esperados, em vários bairros, as torneiras permanecem secas durante dias, semanas e, em alguns casos, durante um mês e o sistema de abastecimento revela-se incapaz de responder à crescente procura, agravado por limitações técnicas e frequentes interrupções no fornecimento de energia eléctrica, que comprometem o processo de bombagem da água.
Perante este cenário, milhares de residentes continuam dependentes de poços e da água do Lago Niassa para satisfazer as necessidades básicas e para muitos, a escassez de água potável deixou de ser um problema pontual e tornou-se parte da rotina, numa realidade que contrasta com as sucessivas promessas de melhoria do sistema de abastecimento.
Ambrosio Benjamim, um dos moradores da região considera que o acesso à água potável não deve continuar a depender da sorte ou de soluções improvisadas. “A água é um direito, não um privilégio. Queremos soluções concretas e um abastecimento que responda às necessidades da população”, defende o morador e acrescenta que a persistência da crise levanta questões sobre o planeamento urbano e a gestão dos serviços públicos.
“Vivemos ao lado de um dos maiores lagos de África, mas continuamos sem água nas nossas casas. É uma contradição difícil de aceitar”, lamentou.
Outra residente do bairro Nchepa é Justina Kambeu que lamenta a irregularidade no fornecimento. Contou que, em algumas ocasiões, as famílias permanecem “três dias e, por vezes, até um mês sem água nas nossas torneiras”.
“Está a se construir um sistema de abastecimento de água mas nunca termina e pensámos que a água canalizada resolveria este problema definitivamente, mas continuamos a sofrer. Há dias em que as torneiras não deitam sequer uma gota”, conta a residente do bairro Nchepa, enquanto aguardava a sua vez para encher recipientes de água.
Sem alternativas, algumas famílias recorrem à água do Lago Niassa. No entanto, muitos evitam consumi-la “porque temos medo de doenças. Aquela água não tem as condições de higiene necessárias para o consumo”, afirmou Amina Vireque.
A distância até aos pontos de abastecimento é outro desafio enfrentado por parte da população. Zaina Ndala explica que os moradores das zonas mais elevadas são os mais afectados. Por sua vez, Cecília Mateus considera que os poucos pontos de abastecimento existentes não conseguem responder às necessidades da população. “Pedimos que o Governo e o Conselho Municipal reforcem o abastecimento para aliviar o sofrimento da população”, apelou.
Os depoimentos reflectem as dificuldades vividas diariamente pelos residentes, numa altura em que o Conselho Municipal reconhece as limitações do actual sistema de abastecimento e garante estar a desenvolver projectos para ampliar a cobertura da rede de água potável em diferentes bairros da vila.
O vereador da Área de Urbanização, Sérgio Majone, admitiu que, apesar da abundância de água doce no Lago Niassa, a capacidade de bombagem e distribuição ainda está aquém das necessidades da população. “Há bairros onde o fornecimento ainda não chega com frequência e, quando há oscilações no fornecimento de energia eléctrica, as consequências são ainda maiores”, afirmou.
Segundo o vereador, as reclamações dos munícipes são legítimas e “estamos a envidar esforços, mas, como não conseguimos arrecadar receitas suficientes, só podemos recorrer aos parceiros de cooperação e à ajuda externa para ultrapassar este problema”, disse.
Por sua vez, o edil de Metangula, Paulo Chicomaussico, garantiu que a melhoria do abastecimento de água constitui uma das prioridades do município e neste momento decorrem trabalhos no bairro Sanjala, onde está em construção um novo sistema de abastecimento de água destinado a beneficiar aquela comunidade.



