O governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, reconhece que a actual crise de combustíveis, os atrasos no pagamento da dívida pública e o agravamento das tensões no Médio Oriente estão a aumentar os riscos sobre a economia nacional, levando o banco central a reforçar medidas de controlo da liquidez para travar uma possível aceleração da inflação nos próximos meses.
Durante a sua apresentação na terça-feira sobre as decisões do Comité de Política Monetária, Zandamela disse que a manutenção da taxa MIMO em 9,25%, visa assegurar a economia, refeindo que aumento do coeficiente de reservas obrigatórias em moeda nacional de 29% para 39%, vai reduzir o excesso de liquidez existente no sistema financeiro.
Segundo o governador, a medida surge num contexto de fortes incertezas internacionais e de crescente pressão sobre os preços dos combustíveis e produtos alimentares.
“A decisão decorre da prevalência de elevadas incertezas quanto à duração do conflito no Médio Oriente e ao seu impacto sobre a cadeia logística e a oferta de bens, assim como sobre os preços internacionais e domésticos dos combustíveis e alimentos”, declarou.
O Banco de Moçambique admite agora que a inflação poderá voltar a atingir níveis de dois dígitos, cenário que poderá agravar ainda mais o custo de vida no país.
“Antecipamos uma aceleração da inflação no curto e médio prazo, podendo atingir dois dígitos dependendo da evolução do conflito no Médio Oriente”, alertou Zandamela.
O governador explicou que a subida dos preços dos combustíveis líquidos, associada às dificuldades no abastecimento e ao aumento da inflação importada, continua a pressionar os preços no mercado interno.
“A previsão da inflação reflecte os efeitos directos e indirectos do ajustamento dos preços domésticos dos combustíveis líquidos, da intermitência no seu fornecimento e da inflação importada”, afirmou.
A conferência de imprensa ficou marcada por várias perguntas relacionadas com as dificuldades enfrentadas pelas gasolineiras para importar combustíveis, numa altura em que persistem relatos de constrangimentos no acesso a garantias bancárias.
Jornalistas questionaram directamente o governador sobre a capacidade do sistema financeiro em apoiar a importação regular de combustíveis e sobre o eventual impacto da escassez de divisas na economia nacional.
Representantes da imprensa referiram que algumas gasolineiras alegam estar a enfrentar dificuldades para obter garantias junto dos bancos comerciais devido à falta de confiança no actual ambiente económico.
Questionado sobre o assunto, Zandamela evitou confirmar detalhes sobre operações específicas envolvendo combustíveis, mas admitiu que o contexto económico internacional continua particularmente desafiante para países importadores como Moçambique.
Ao mesmo tempo, o governador reconheceu que os atrasos nos pagamentos da dívida pública interna e externa continuam a afectar o funcionamento normal do sistema financeiro nacional.
“O endividamento público e os atrasos da dívida interna e externa mantêm-se elevados, afectando o normal funcionamento do mercado financeiro e a liquidez bancária”, afirmou.
Segundo dados apresentados pelo Banco de Moçambique, a dívida pública interna situa-se actualmente em cerca de 493,1 mil milhões de meticais, representando um aumento de aproximadamente 18,5 mil milhões de meticais em comparação com Dezembro de 2025.
De acordo com o governador, os atrasos nos pagamentos do Estado têm vindo a produzir impactos negativos sobre a confiança no mercado financeiro e sobre a procura de títulos públicos.
“Esses atrasos afectam a apetência por títulos públicos, a rigidez das taxas de juro no mercado monetário interbancário e a própria avaliação do risco do país”, explicou.
Durante a sessão de perguntas e respostas, jornalistas questionaram ainda o banco central sobre a racionalidade do pagamento da dívida externa ao Fundo Monetário Internacional, numa altura em que persistem atrasos nos pagamentos internos a fornecedores e empresas nacionais.
Os profissionais de comunicação social levantaram igualmente preocupações sobre o impacto do pagamento da dívida externa na disponibilidade de divisas para a importação de combustíveis e outros produtos essenciais.
Apesar das insistências, o governador preferiu não aprofundar detalhes sobre as opções de gestão financeira do Estado, limitando-se a reafirmar que o Banco de Moçambique continuará atento à evolução dos riscos macroeconómicos.
Outro dos temas que dominou a conferência foi a possibilidade de o banco central voltar a intervir directamente no processo de importação de combustíveis, como aconteceu recentemente durante o agravamento da crise de abastecimento.
Jornalistas recordaram que, em declarações anteriores, o Banco de Moçambique tinha afastado a hipótese de participação directa na importação de combustíveis, situação que acabou por se alterar perante as dificuldades verificadas no mercado.
Questionado sobre uma eventual nova intervenção, Zandamela manteve cautela e não avançou qualquer garantia sobre futuras operações.
A conferência ficou também marcada por um momento de tensão relacionado com o atraso superior a uma hora no início do evento, situação criticada por jornalistas presentes na sala.
Após as críticas, o governador pediu desculpas aos profissionais de comunicação social e reconheceu falhas organizacionais no processo. “Eu sou extremamente pontual. Time is money. Não devemos perder tempo, nem o nosso nem o de ninguém”, declarou.
Segundo explicou, a demora esteve relacionada com a complexidade das discussões internas realizadas antes da divulgação das decisões do Comité de Política Monetária. “Tivemos uma situação muito excepcional hoje. As discussões foram mais longas do que o previsto”, justificou.
O Banco de Moçambique reconhece que o actual contexto económico continua rodeado de fortes incertezas, sobretudo devido às tensões geopolíticas internacionais e aos impactos provocados pelas inundações registadas no país durante o primeiro trimestre do ano. O governador alertou ainda para os riscos associados ao aumento dos custos logísticos e à redução da capacidade produtiva em algumas regiões afectadas pelos eventos climáticos extremos.
“A nível doméstico persistem incertezas quanto à magnitude dos efeitos indirectos do aumento dos preços dos combustíveis sobre a cadeia logística e sobre a oferta de bens”, afirmou.
Apesar do cenário de pressão económica, o banco central garante que continuará a adoptar medidas destinadas à preservação da estabilidade macroeconómica e ao controlo da inflação.
“A direcção da política monetária continuará condicionada à avaliação dos riscos e incertezas subjacentes às projecções da inflação”, concluiu Rogério Zandamela.





