Num contexto marcado pelo desemprego, elevado custo de vida e dificuldades no acesso ao emprego formal, milhares de moçambicanos encontram no comércio informal uma forma de garantir o sustento das suas famílias. Em Maputo, mulheres, jovens e até pessoas com formação superior recorrem diariamente às vendas ambulantes e pequenos negócios para sobreviver. Entre jornadas longas, falta de protecção social, prejuízos constantes e ausência de apoio estruturado, trabalhadores informais relatam os desafios de um sector que continua a ser uma das principais bases da economia nacional.
Há 24 anos no comércio informal, Megue César, moradora do bairro de Malhazine, transformou a venda de refeições e produtos diversos na sua principal fonte de rendimento. Todos os dias instala a sua banca em frente ao Instituto de Comunicação Social, na Avenida Ho Chi Min, esquina com Amílcar Cabral, no “Museu”, bairro central na cidade de Maputo.
Tia Megue, como é carinhosamente tratada por quem aproxima a sua banca em busca de uma refeição, conta que antes de iniciar este negócio de venda de comida, trabalhou como secretária em algumas casas, mas decidiu abandonar o emprego por considerar que os salários não compensavam o esforço feito.
A vendedeira diz não ter receio de aconselhar outras mulheres a iniciarem os seus próprios negócios, defendendo que trabalhar para terceiros tornou-se cada vez mais difícil devido às baixas remunerações e atrasos nos pagamentos.
Apesar da experiência acumulada, relata enfrentar vários obstáculos no dia-a-dia, desde a falta de movimento até clientes que consomem produtos e não efectuam o pagamento. “Há clientes que levam comida ou refrigerantes e não pagam. Por vezes, devido ao movimento de pessoas, levam algumas coisas e não pagam por eu não me aperceber”, lamentou.
Tia Megue explica ainda que os lucros são reduzidos, sobretudo em produtos básicos como o pão, onde chega a ganhar apenas um metical por unidade vendida e outros produtos chegam a lhe render cinco meticais de lucro.
“Durmo às 18h e acordo à meia-noite”
A rotina da comerciante começa ainda durante a madrugada. Tia Megue revela que dorme às 18 horas e acorda à meia-noite para confeccionar os alimentos que vende ao amanhecer. “O que me leva mais tempo é fazer badjias e fritar batatas”, explicou.
Segundo descreve, termina os preparativos por volta das 03 horas e sai de casa por volta das 4 da manhã para apanhar o primeiro autocarro da rota Malhazine–Museu da terminal e até as 5 da manhã já está posicionada no seu local de venda.
A comerciante falou dos desafios deste negócio. “Quando alguém pede emprestado e não paga, dói porque é um sacrifício que faço”, desabafou.
Apesar das dificuldades, tia Megue orgulha-se do que conseguiu conquistar através do comércio informal. Conta que possui uma casa organizada e com condições básicas, faltando-lhe apenas adquirir uma viatura. “Ganhei tudo que tenho através do trabalho informal”, afirmou.
“A pobreza é sinónimo da exclusão social”
O analista Orlando Gasolina considera que a expansão da economia informal em Moçambique se traduz numa pobreza estruturante para quem “a pobreza é sinónimo da exclusão social, por isso muitas pessoas optam pela forma informal de sobrevivência”, declarou.
Segundo o analista, uma das medidas fundamentais para reduzir a dependência da informalidade passa pela criação de emprego, tanto por parte do Governo como do sector privado. Contudo, entende que o ambiente burocrático dificulta investimentos, sobretudo para pequenas e médias empresas.
Gasolina defende que o Estado deve criar mecanismos de financiamento para pequenas iniciativas juvenis, considerando que muitos jovens não conseguem cumprir todas as exigências impostas pelo sistema financeiro nacional, havendo a necessidade dos bancos comerciais reduzirem as taxas de juros como forma de incentivar o empreendedorismo.
O analista manifestou igualmente esperança em relação ao Banco de Desenvolvimento de Moçambique, afirmando esperar que a instituição venha preencher lacunas no financiamento juvenil e garantir acesso mais inclusivo ao crédito, sem favorecimentos políticos.
“Hoje há doutores no mercado informal”
Orlando Gasolina observa que o comércio informal deixou de ser um espaço exclusivamente ocupado por pessoas sem escolaridade sendo possível, na actualidade, encontrar jovens com formação de nível superior a recorrerem à venda informal devido à escassez de emprego formal no País.
Num outro desenvolvimento, o analista critica as condições em que muitos vendedores desenvolvem as suas actividades, referindo que os mercados apresentam problemas de saneamento, lixo acumulado, águas negras e ausência de assistência por parte das autoridades.
Gasolina entende que existe desorganização no sector, com bancas espalhadas por passeios públicos e vendedores sem acesso à segurança social. Acrescenta que, embora a economia informal exista em vários países, em Moçambique falta organização, segurança e regras claras.
Para o analista, as entidades responsáveis demonstram maior preocupação na cobrança de taxas do que na melhoria das condições de trabalho dos vendedores.
Economia informal sustenta milhões de famílias
Uma análise publicada pela Revista Tempo sobre a economia informal em Moçambique, especialistas consideram que o sector continua a ser uma das principais bases de sobrevivência para milhões de famílias, apesar dos inúmeros desafios estruturais que enfrenta. A publicação refere que cerca de 80% da força de trabalho moçambicana actua no sector informal, contribuindo significativamente para o Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
A análise descreve a economia informal como um espaço marcado por baixos rendimentos, reduzida produtividade e ausência de protecção social, afectando sobretudo mulheres e jovens. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), citados na publicação, indicam que mais da metade da força de trabalho informal é composta por mulheres ligadas principalmente ao comércio e à agricultura, em condições consideradas instáveis e precárias.
No mesmo texto, o secretário-geral da OTM-CS, Alexandre Munguambe, defende que a formalização do sector poderia melhorar as condições de trabalho e ampliar as receitas do Estado, considerando que a informalidade compromete a dignidade laboral e dificulta o desenvolvimento sustentável do País.
Já o economista João Mosca entende que, apesar das limitações, a economia informal funciona como uma resposta imediata ao desemprego e à pobreza, permitindo que muitas famílias consigam satisfazer necessidades básicas de sobrevivência.
A análise conclui que, embora a economia informal represente uma importante rede de sustento para milhões de moçambicanos, o sector continua a colocar desafios ao desenvolvimento sustentável, exigindo maior coordenação entre o Governo, empregadores e organizações sociais para proteger os trabalhadores sem comprometer a sua sobrevivência.




