A redefinição das prioridades económicas da União Europeia (UE) está a criar novas oportunidades para países africanos com potencial crescimento, entre os quais Moçambique surge como um dos destinos com capacidade para atrair investimentos em áreas estratégicas como minerais críticos, energia, logística e economia digital.
A avaliação é do economista Eduardo Sengo, que considera a actual reorganização das cadeias globais de valor e a crescente competição económica entre as grandes potências mundiais estão a levar a Europa a procurar novos parceiros e novas fontes de crescimento.
Segundo o especialista Moçambique reúne um conjunto de condições que podem torná-lo particularmente atractivo para investidores europeus nos próximos anos. “A União Europeia tem sido o maior investidor estrangeiro em Moçambique e continua a ser um dos nossos mais importantes parceiros comerciais”, afirmou.
Para Eduardo Sengo, o relacionamento económico entre Moçambique e a UE tem vindo a consolidar-se ao longo das últimas décadas através de investimentos em sectores fundamentais para o desenvolvimento do país. Na sua perspectiva, esta relação cria uma base favorável para o aprofundamento da cooperação económica.
Infra-estruturas, energia, agricultura, indústria, formação profissional e desenvolvimento institucional figuram entre as áreas que beneficiaram do apoio europeu ao longo dos anos, contribuindo para a modernização gradual da economia nacional.
Contudo, o economista observa que o actual contexto internacional é substancialmente diferente daquele que caracterizou os anos anteriores. “A União Europeia percebeu que, na corrida pelos mercados globais, estava a ficar um pouco atrás das grandes potências e procura agora reposicionar-se”, explicou.
A crescente rivalidade económica entre os Estados Unidos da América e a China está a provocar uma reconfiguração das estratégias comerciais e de investimento à escala global, levando vários blocos económicos a redefinir prioridades.
Neste cenário, segundo Sengo, a Europa procura reforçar a sua presença em mercados considerados estratégicos para garantir acesso a matérias-primas, novos consumidores e oportunidades de expansão económica.
Uma das prioridades identificadas pelo bloco europeu está relacionada com os chamados minerais críticos ou minerais estratégicos. “A nova estratégia europeia procura investir em minerais raros que têm impacto nas novas tecnologias e na inteligência artificial”, referiu.
Estes recursos são indispensáveis para a produção de baterias, veículos eléctricos, equipamentos electrónicos, tecnologias verdes e sistemas associados à digitalização das economias.
A procura internacional por minerais críticos tem vindo a aumentar significativamente nos últimos anos, impulsionada pela transição energética e pela necessidade de reduzir a dependência de mercados específicos.
Moçambique possui reservas de diversos recursos minerais que podem assumir relevância crescente neste novo contexto internacional, despertando interesse junto de investidores e parceiros estrangeiros.
De acordo com Sengo, esta realidade cria uma oportunidade concreta para o país se posicionar de forma mais competitiva nos mercados globais. “Temos recursos e temos potencial para aproveitar esta procura crescente”, observou.
O economista considera, no entanto, que a simples existência de recursos naturais não garante benefícios automáticos para a economia nacional, sendo necessário criar mecanismos para maximizar o valor gerado.
Na sua opinião, o país deve apostar na transformação local dos recursos, na criação de emprego qualificado e no fortalecimento das cadeias produtivas associadas ao sector extractivo.
Além dos recursos minerais, a agenda económica europeia está igualmente orientada para sectores ligados à inovação tecnológica e à digitalização, considerados fundamentais para o crescimento económico futuro.
Neste domínio, Moçambique apresenta indicadores que revelam potencial significativo para expansão e modernização de serviços. “Moçambique oferece muitas potencialidades porque é um mercado que ainda está a crescer”, afirmou.
A expansão do acesso à Internet e o aumento da utilização de dispositivos móveis estão a criar novas oportunidades para empresas tecnológicas, investidores e empreendedores nacionais.
Segundo Sengo, o país apresenta uma margem de crescimento considerável no que diz respeito à inclusão digital e ao desenvolvimento de novos serviços tecnológicos. “Temos cerca de 40 por cento de penetração da Internet e ainda existe um enorme espaço para crescer”, explicou.
O número de utilizadores de telemóveis continua igualmente a aumentar, criando condições para a diversificação dos serviços digitais disponíveis no mercado nacional.
“Temos milhões de utilizadores de telemóveis e à volta desses utilizadores existe a possibilidade de oferecer uma série de serviços digitais”, sublinhou o economista.
Na avaliação de Sengo, áreas como pagamentos electrónicos, comércio digital, educação à distância e serviços financeiros inclusivos poderão beneficiar directamente deste crescimento tecnológico.
A juventude moçambicana é apontada como um dos principais motores deste processo, uma vez que representa a maior parte da população utilizadora das novas tecnologias.
“A maior parte destes utilizadores são jovens, o que demonstra o potencial que existe para desenvolver soluções adaptadas a esta realidade”, referiu.
Além da economia digital, a energia continua a figurar entre os sectores que despertam maior interesse junto dos investidores internacionais e dos parceiros de desenvolvimento.
Moçambique possui vastos recursos energéticos, incluindo gás natural, energia hidroeléctrica e potencial para projectos de energias renováveis em diferentes regiões do país.
Segundo Eduardo Sengo, a questão energética continua a ocupar um lugar central na agenda dos investidores. “A Europa não deixou de lado a questão energética e continua a olhar para esse sector como uma prioridade”, afirmou.
O especialista considera que a crescente procura mundial por fontes de energia mais limpas poderá criar novas oportunidades para projectos de produção e exportação de energia em Moçambique.
A logística constitui igualmente uma das áreas estratégicas identificadas pelo economista como fundamentais para o desenvolvimento económico nacional.
A localização geográfica do país oferece vantagens importantes para o comércio regional, sobretudo através dos corredores que ligam os países do interior da África Austral aos portos moçambicanos.
Portos, caminhos-de-ferro e infra-estruturas rodoviárias são vistos como activos capazes de reforçar a competitividade económica e atrair novos investimentos.
Para Eduardo Sengo, o aproveitamento destas oportunidades dependerá, em grande medida, da capacidade de o país apresentar projectos estruturados e alinhados com as necessidades dos investidores.
“Não somos os donos exclusivos desta oportunidade. Existem outros países que também procuram captar estes investimentos”, alertou.
O economista considera que a competição por capital internacional é cada vez mais intensa e exige uma abordagem mais profissional por parte dos agentes económicos nacionais.
Na sua opinião, Moçambique precisa de melhorar a forma como apresenta as suas oportunidades de negócio em fóruns económicos internacionais. “Não podemos participar nestes encontros apenas com muita teoria. Precisamos de estruturar melhor aquilo que pretendemos fazer”, defendeu.
Segundo explicou, muitos projectos nacionais apresentam potencial, mas não possuem o nível de preparação exigido pelos financiadores e investidores estrangeiros. “Muitas vezes a oportunidade existe, mas falta transformar a ideia num projecto que possa ser financiado e implementado”, observou.
Para ultrapassar estas limitações, o economista defende um papel mais activo do Governo e das instituições vocacionadas para a promoção de investimento e negócios. Segundo Sengo, a preparação prévia é essencial para garantir que as empresas participem nos eventos com objectivos claros, estratégias definidas e propostas competitivas.
“O follow-up é fundamental. Quando as empresas são claras sobre aquilo que pretendem e fazem o acompanhamento adequado, os resultados podem surgir”, concluiu.
Num momento em que a União Europeia procura reforçar a sua presença económica em mercados considerados estratégicos, Eduardo Sengo acredita que Moçambique reúne condições para beneficiar desta nova dinâmica internacional, desde que consiga transformar potencial em projectos concretos, capazes de gerar investimento, emprego e desenvolvimento sustentável.



