“Peguei num produto que era rejeitado inteiro e, através da transformação em filé limpo e sem pele e espinhas, transformei a rejeição em aceitação total por parte dos clientes”. É desta forma que Onélio Américo Lineco, de 26 anos, descreve a ideia que deu origem ao seu empreendimento de processamento de pescado. Natural de Inhambane, especificamente do distrito de Zavala, e finalista de Engenharia de Aquacultura pelo Instituto Superior Politécnico de Gaza (ISPG), o jovem decidiu transformar o conhecimento adquirido na universidade numa actividade económica.
Por: Celso Chinai
Desde Maio de 2026, Onélio dedica-se ao processamento de pescado, com especial atenção ao bagre africano (Clarias gariepinus), uma espécie que, segundo o empreendedor, enfrentava alguma rejeição entre consumidores devido sobretudo à sua aparência. Foi precisamente nessa rejeição que encontrou uma oportunidade de negócio.
A ideia de trabalhar com o bagre africano surgiu durante a sua formação académica, particularmente no percurso ligado à formulação de dietas para organismos aquáticos. Durante os estudos, Onélio aprendeu a aproveitar diferentes partes do peixe. A massa muscular poderia ser destinada ao consumo humano, enquanto partes como espinhas e pele poderiam ser utilizadas na alimentação de organismos aquáticos. “Na elaboração de dietas aquícolas, é indispensável incluir um ingrediente de origem animal, sendo o peixe a fonte ideal”, explica.
Foi nesse processo que percebeu que poderia transformar o peixe num produto com maior valor comercial. “Para não utilizar as partes nobres que servem para o consumo humano, aprendemos a filetar o bagre africano: a parte da massa muscular é destinada à alimentação humana em forma de filé, enquanto as partes descartadas, como espinhas, pele, etc., são aproveitadas e incorporadas na dieta dos peixes”, conta.
A partir daí, nasceu a ideia de unir o conhecimento adquirido na universidade ao empreendedorismo, acto que marcou a entrada do jovem no mundo do empreendedorismo que projecta-se como prospero ao nível local.
Da universidade para o mercado
Para Onélio, a formação académica não deveria permanecer apenas nas salas de aula. Os conhecimentos adquiridos no ISPG passaram a ser aplicados directamente no negócio. “A formação no Instituto Superior Politécnico de Gaza (ISPG) foi a base técnica de todo o projecto”, afirma.
Segundo o jovem, disciplinas relacionadas com qualidade da água, maneio aquícola, microbiologia, higiene alimentar, tecnologia e processamento de pescado e gestão de projectos contribuíram para estruturar a actividade.
O objectivo é garantir que o pescado passe por um processo de transformação com critérios de qualidade e segurança alimentar. A actividade começa com a aquisição e selecção do pescado, tendo em conta aspectos como frescura, tamanho e sanidade. Onélio salienta que não aceita peixe morto. “Não aceito peixe morto, eu é que faço o abate”, explica.
Depois do abate, seguem-se o esfolamento, a evisceração, a remoção da cabeça e a filetagem. Os filés são posteriormente lavados e sanitizados com água limpa, antes de serem pesados, embalados e conservados sob refrigeração ou congelação.
A transformação do bagre inteiro em filé acabou por alterar a forma como alguns consumidores olham para o produto. Segundo Onélio, a apresentação do pescado sem pele e espinhas e pronto para cozinhar ajudou a reduzir a resistência inicial de alguns clientes. “Muitas pessoas tinham algum receio inicial em relação ao bagre, mas a apresentação em filé limpo, sem espinhas e pronto a cozinhar mudou totalmente essa percepção”, relata.
O jovem diz que os consumidores têm destacado sobretudo a praticidade e a qualidade da carne. Actualmente, o produto é comercializado directamente ao consumidor final nas províncias de Inhambane, Gaza e Maputo.
A comercialização é feita sob encomenda. A estratégia, segundo o empreendedor, está relacionada com a necessidade de garantir que o produto chegue ao cliente com elevado nível de frescura. “Decidi trabalhar sob encomenda para garantir que o cliente receba sempre um produto extremamente fresco, abatido e processado”, explica.
O filé é comercializado a 250 meticais por quilograma. O preço, segundo Onélio, foi estabelecido considerando os custos de aquisição do peixe, processamento e embalagem, procurando manter uma margem que permita a sustentabilidade da actividade e, simultaneamente, manter o produto competitivo no mercado local.
Infraestrutura limita crescimento
Apesar da aceitação positiva, o empreendimento ainda enfrenta limitações para aumentar a sua capacidade de produção. O principal obstáculo está relacionado com a falta de uma infraestrutura adequada e de equipamentos industriais para o processamento e conservação do pescado. “O principal desafio é a infraestrutura de processamento e conservação”, afirma Onélio.
Entre as necessidades identificadas estão equipamentos para corte, embalagem a vácuo e congelação rápida. A logística de transporte e a distribuição em maior escala também representam desafios para a expansão do negócio.
O jovem pretende, por isso, criar um espaço próprio de processamento e embalagem que cumpra os padrões de higiene e qualidade exigidos.
Para concretizar esse objectivo, Onélio aponta a necessidade de investimento em mesas de corte e bancadas de aço inoxidável sanitário, máquina industrial de embalagem a vácuo, arcas frigoríficas, câmara de congelação rápida, equipamentos de higiene e protecção individual, além de seladoras e sistemas adequados de rotulagem.
O acesso ao financiamento e aos equipamentos é, neste momento, uma das suas principais preocupações. “Nesta fase, o apoio mais urgente centra-se na aquisição de equipamentos de processamento e financiamento para a montagem das instalações adequadas”, diz. Além do investimento na estrutura, Onélio pretende ampliar o mercado, chegando às redes de supermercados e ao sector da restauração.
Entre cinco e dez jovens poderão ser integrados
Mais do que criar uma fonte de rendimento pessoal, o empreendedor pretende que o crescimento da actividade tenha impacto sobre outros jovens. Com a implementação da unidade de processamento e o aumento do volume de vendas, Onélio prevê integrar entre cinco e dez jovens locais.
As oportunidades poderão abranger áreas como limpeza, processamento do pescado, embalagem, distribuição e gestão de vendas. “O meu objectivo é demonstrar que o sector aquícola e o processamento de pescado podem ser fontes reais e dignas de emprego para a juventude”, sublinha.
O sonho do jovem empreendedor vai além do mercado local. Onélio pretende transformar o projecto numa referência no processamento de pescado em Moçambique e, posteriormente, alcançar outros mercados. “A minha visão para o futuro é transformar este projecto numa referência de processamento de pescado a nível nacional assim como internacional”, revela.
A ambição passa por colocar um produto de maior qualidade à disposição dos consumidores e, ao mesmo tempo, promover a aquacultura e o empreendedorismo juvenil. Para Onélio, a experiência demonstra que o conhecimento técnico pode ser convertido em soluções concretas e oportunidades económicas.
A sua trajectória resume-se, assim, numa transformação que começa no conhecimento académico, passa pelo pescado e chega ao mercado: um peixe que muitos rejeitavam inteiro tornou-se, pelas mãos de um jovem empreendedor, um produto processado, pronto para consumo e com potencial para gerar emprego.





