Cerca de 20 mil pequenas e médias empresas poderão prestar de serviços no projecto de exploração de Gás Natural Liquefeito (GNL) na Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, numa iniciativa que a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) considera estratégica para dinamizar o sector empresarial nacional. A perspectiva foi avançadapelo presidente do pelouro de Planificação e Conteúdo Local da CTA, Amahoro Lins, durante uma entrevista concedida a jornalistas. Segundo o responsável, o envolvimento das empresas nacionais deverá abranger diversas áreas de actividade ligadas à cadeia de fornecimento do mega-projecto de gás.
A expectativa da CTA é que a participação do empresariado moçambicano permita aumentar os benefícios económicos dos investimentos realizados na região Norte do país. Para que isso aconteça, a organização empresarial está a trabalhar com parceiros do Governo e outras instituições na criação de mecanismos destinados a identificar as empresas com capacidade para fornecer bens e serviços.
Amahoro Lins explicou que uma das prioridades consiste em realizar um levantamento das pequenas e médias empresas existentes, avaliando as suas capacidades, áreas de actuação e condições para responder às exigências dos grandes projectos.
O objectivo, segundo a fonte, é criar condições para que as empresas nacionais tenham maior acesso às oportunidades geradas pelos mega-projectos. “Nós estamos a envidar esforços com os parceiros do Governo e não só para criar mecanismos de mapeamento das PMA”, afirmou Lins.
O responsável acrescentou que esse trabalho deverá permitir a elaboração de um plano capaz de salvaguardar a participação do empresariado nacional nos grandes investimentos. A intenção é evitar que os investimentos realizados no país beneficiem apenas grandes grupos empresariais ou fornecedores estrangeiros.
Para a CTA, a presença das PMA na cadeia de fornecimento representa uma oportunidade para fortalecer o sector privado nacional e criar condições para o crescimento de negócios de menor dimensão. Entretanto, o acesso à informação continua a ser apontado como um dos principais obstáculos à entrada das empresas nacionais neste mercado. “Muitas vezes, o acesso à informação é um factor que dificulta a integração das empresas para a prestação de serviços”, explicou.
A falta de informação acaba por limitar a capacidade de resposta de empresas que, apesar de possuírem potencial, não conseguem acompanhar os processos de contratação. É neste contexto que a CTA defende uma maior divulgação das oportunidades existentes e o estabelecimento de canais que permitam às empresas conhecer antecipadamente as necessidades dos grandes empreendimentos.
A organização considera igualmente importante que as informações sobre concursos, requisitos técnicos e processos de fornecimento sejam disponibilizadas de forma acessível.
Amahoro Lins entende que uma maior transparência poderá contribuir para ampliar a participação do empresariado nacional. Outro aspecto considerado fundamental está relacionado com o licenciamento das empresas em que o presidente do pelouro de Planificação e Conteúdo Local da CTA foi categórico ao defender a necessidade de as firmas manterem a sua situação legal e documental regularizada.
A regularização empresarial constitui, em muitos casos, uma condição indispensável para que uma empresa possa participar em processos de contratação e fornecimento. Por isso, a CTA recomenda que as pequenas e médias empresas interessadas nestas oportunidades assegurem o cumprimento das exigências legais aplicáveis à sua actividade.
A questão ganha particular importância num sector como o de petróleo e gás, onde os projectos apresentam requisitos específicos de qualidade, segurança e capacidade financeira. As empresas que pretendam entrar nesta cadeia de valor terão, por isso, de elevar os seus padrões de funcionamento.
Isso poderá implicar investimentos em equipamentos, formação de trabalhadores, certificação e melhoria dos sistemas de gestão. Para a CTA, o fortalecimento das capacidades empresariais deve caminhar lado a lado com a criação de oportunidades de negócio.
Questionado sobre os mecanismos de mapeamento e a sua harmonização, Amahoro Lins garantiu que o processo já está em curso e envolve diferentes intervenientes, numa tentativa de evitar a dispersão de informação e garantir uma visão mais clara sobre o universo empresarial disponível.
O levantamento deverá também ajudar a identificar sectores onde existe maior capacidade de fornecimento por parte das empresas moçambicanas. Com essa informação, será possível aproximar a oferta existente das necessidades dos projectos de grande dimensão. A expectativa é que o mecanismo permita uma intervenção mais coordenada entre o sector privado, Governo e parceiros envolvidos na implementação dos investimentos.
A CTA acredita que esta articulação poderá reduzir algumas das barreiras que actualmente impedem a participação de empresas nacionais. O projecto de GNL na Bacia do Rovuma é considerado um dos maiores investimentos em curso ou previstos para Moçambique, com potencial para gerar negócios em diferentes sectores da economia.
Além da produção de gás, a cadeia associada ao empreendimento pode criar procura por serviços de transporte, construção, alimentação, alojamento, logística, manutenção e fornecimento de diversos bens.
São precisamente estas áreas que poderão abrir espaço para a entrada de pequenas e médias empresas. A participação nacional poderá ainda contribuir para a criação de emprego e para o desenvolvimento de competências entre trabalhadores e empresários moçambicanos.
No Norte do país, onde as oportunidades económicas continuam a ser uma preocupação central, o envolvimento do empresariado local poderá ter impacto directo na geração de rendimentos. A CTA pretende, por isso, que o conteúdo local deixe de ser apenas uma referência nos grandes projectos e passe a traduzir-se em oportunidades concretas para as empresas nacionais.
Amahoro Lins considera que a consolidação destes mecanismos poderá produzir resultados progressivos no médio prazo. A organização empresarial perspectiva, igualmente, que o aumento da participação das empresas nacionais contribua para uma mudança gradual do panorama económico do país.
O desafio passa agora por transformar as oportunidades associadas aos grandes investimentos em negócios sustentáveis para o sector privado nacional. Para a CTA, o sucesso desse processo dependerá da capacidade de aproximar empresas, Governo e investidores, melhorar o acesso à informação e preparar o empresariado para responder às exigências dos grandes projectos.






