Quase 19% das crianças em todo o mundo vivem em zonas de conflito, enquanto o número de menores deslocados devido à violência e à insegurança quase triplicou entre 2010 e 2024. Os dados constam do relatório anual apresentado pela representante especial das Nações Unidas sobre Violência contra Crianças, Najat Maalla M’jid, à Assembleia Geral da ONU, que alerta para a crescente exposição dos menores a múltiplas formas de vulnerabilidade.
Segundo o documento, até ao final de 2024, cerca de 50 milhões de crianças tinham sido obrigadas a abandonar as suas casas devido a conflitos e à violência. O relatório indica ainda que aproximadamente 45 milhões de menores se encontram deslocados, num cenário internacional marcado pela multiplicação das crises humanitárias.
Além dos conflitos armados, as alterações climáticas agravam os riscos enfrentados pela população infantil. Estima-se que 1,1 mil milhões de crianças estejam expostas a pelo menos três riscos climáticos simultâneos, enquanto o aumento dos preços dos alimentos e da energia, a inflação e a instabilidade económica contribuem para aprofundar as dificuldades das famílias.
O relatório revela igualmente que uma em cada cinco crianças vive em pobreza extrema, uma situação que não se limita aos países de baixo rendimento. A privação económica, associada à insegurança alimentar e à falta de acesso a serviços essenciais, compromete as condições de desenvolvimento e protecção dos menores.
A representante especial da ONU chamou também a atenção para os riscos associados à expansão das novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial. Embora reconheça as oportunidades proporcionadas por estas ferramentas, Najat Maalla M’jid alertou para a sua utilização na exploração sexual infantil, no ciberbullying, na criação de imagens falsas de carácter sexual e no recrutamento de crianças para actividades criminosas.
O documento faz ainda um balanço dos progressos registados desde o primeiro estudo global das Nações Unidas sobre violência contra crianças, publicado em 2006. Apesar da aprovação de reformas jurídicas e políticas de protecção, persistem dificuldades na implementação das medidas e no acesso das crianças e dos seus cuidadores aos serviços de apoio.
Perante este cenário, as Nações Unidas defendem uma resposta internacional mais abrangente para prevenir a violência e proteger os menores em situações de conflito, deslocamento, pobreza e emergência climática, sublinhando que a violência contra crianças pode ser prevenida e não tem justificação.




