Nos últimos anos, as ruas da cidade de Chimoio têm sido inundadas por crianças, jovens e adultos que, sem condições mínimas de sobrevivência, vêem a urbe como uma oportunidade para saciar a fome através do pedido de esmolas. Em vários pontos da cidade é frequente encontrar pessoas em situação de mendicidade, fenómeno que preocupa moradores e autoridades.
Durante uma ronda efectuada pela nossa equipa de reportagem, constatámos a presença de dezenas de mendigos junto a mercados, estabelecimentos comerciais, semáforos e outros locais de grande circulação de pessoas. Muitos afirmam que a falta de emprego, as dificuldades económicas e problemas de saúde estão entre as principais razões que os levaram a procurar sustento nas ruas.
“Mano ajuda”, “dá-me pelo menos cinco meticais”, “não tenho nada para comer”, são algumas das expressoes mais comuns utilizadas por quem se faz a rua com o objectivo de pedir esmolas, um cenario que vai se normalizando no quotidiano da urbe.
Doença e falta de condições empurram para as ruas
Falando em entrevista ao ISOCNews, Zacarias João, de 53 anos de idade, mais conhecido por “Faxavor”, conta que vive nas ruas da cidade de Chimoio há cerca de cinco anos. Segundo relata, antes trabalhava normalmente e conseguia garantir o próprio sustento, mas problemas de saúde mudaram completamente a sua vida.
“Antes eu estava bem, andava com carrinho de mão, fazia os meus serviços porque sou mestre. Só que as coisas correram mal e tenho problemas de coluna. Disseram que precisava de uma operação, mas dinheiro não tenho e estou aqui a pedir ajuda”, conta.
Zacarias afirma ainda que a situação se tornou mais difícil nos últimos tempos devido à redução das contribuições recebidas diariamente.
“Naquele tempo conseguia comprar farinha, mas agora não há nada. Às vezes ganho 40 ou 50 meticais, mas não é fácil. Há dias em que nem venho aqui. Algumas pessoas de boa fé ajudam-me quando estou em casa”, acrescenta.
Questionado sobre a possibilidade de iniciar um pequeno negócio, responde que os valores arrecadados são insuficientes para criar qualquer actividade de rendimento.
Mulheres também enfrentam dificuldades
A realidade não afecta apenas homens. Fátima Macaul, de 32 anos, diz que recorre à mendicidade há três anos devido à falta de condições para garantir o sustento diário.
“Venho aqui nas quintas-feiras e costumo entrar nas lojas. Às vezes dão-me pão e bolachas porque no bairro não me dão nada. Quando faço negócio nem dinheiro de compra nem de lucro consigo ganhar”, lamenta.
A semelhança de outros entrevistados, Macaul afirma que preferia ter uma actividade estável que lhe permitisse sustentar-se sem depender da ajuda de terceiros.
Presença de crianças nas ruas
Entretanto, um dos aspectos que mais chama a atenção é a presença de crianças em situação de mendicidade. Em vários pontos da cidade é possível encontrar menores acompanhando os pais ou pedindo ajuda directamente aos transeuntes da via pública.
Alguns entrevistados contam que muitas destas crianças acompanham os seus encarregados de educação, que também enfrentam dificuldades económicas e acabam por recorrer às ruas como forma de sobrevivência.
A situação preocupa devido aos riscos associados à permanência prolongada de crianças nos espaços públicos, incluindo a exposição à violência, abandono escolar e outras formas de vulnerabilidade social.
Perante o aumento dos casos, os Serviços de Acção Social reconhecem a existência do fenómeno e afirmam estar a desenvolver acções destinadas a minimizar o seu impacto. A instituição, avança que decorrem iniciativas de assistência às famílias vulneráveis e programas de apoio social com vista a reduzir o número de pessoas que recorrem à mendicidade como forma de sobrevivência.
Enquanto isso, a realidade continua visível nos principais pontos da cidade de Chimoio, onde diariamente homens, mulheres e crianças estendem a mão em busca de ajuda para garantir a próxima refeição. (Alberto Cumbane)







