Na cidade de Chimoio, a pobreza, as uniões prematuras, a gravidez precoce e as dificuldades familiares continuam a impedir a inserção e permanência de muitas crianças no Sistema Nacional de Educação, comprometendo sonhos e reduzindo oportunidades para o futuro, mesmo com os esforços do Governo e da Sociedade Civil para inverter o cenário.
Azélia Franciso António, 16 anos de idade, mãe de uma filha de 6 meses de vida e cuidadora de lar desde aos 14 anos conta que deixou de estudar devido a restrições financeiras.
Com um rosto de quem já se conformou com a situação, Azélia conta que não teve problemas em estudar até a 5ª classe, altura em que os primeiros obstáculos começaram a tornar insustentável a sua permanência na escola. “Deixei de estudar porque me falavam para trazer equipamento, canetas cadernos, muitas coisas que eu não conseguia trazer”, conta Azélia acrescentando que por não ter essas condições, deu uma pausa de dois anos aos estudos e foi a Tete, onde sua tia a chamara para dar seguimento aos estudos.
A chamada da tia desta rapariga serviu como uma bola de oxigénio no seu sonho de terminar a escola, porque segundo conta “ela é que comprava tudo para mim, daí avancei até 10ª classe”. E foi depois de concluir a 10ª classe que Azélia voltou a interromper os estudos, desta vez porque estava gravida aos 16 anos de idade. Foi ai que as coisas tomaram um rumo diferente na sua vida porque os seus pais e os pais do seu actual marido, obrigaram-nos a contrair o matrimonio.
Alias, a decisão de se casar veio logo após Azélia ter regressado à casa tarde tendo encontrado o portao trancado, obrigando o namorado a contactar um mototaxista para leva-la para a sua casa onde passaria a noite. “Depois disso minha família com família dele marcaram um encontro e decidiram que eu devia ficar com meu marido” acrescentou.
Pobreza e gravidez precoce por trás do abandono escolar
Histórias como a de Azélia não são casos isolados. Professores ouvidos pela nossa reportagem apontam a pobreza e a gravidez precoce como algumas causas por detrás do abando escolar. “Aqui na escola, admite-se que a menina assista as aulas mesmo estando grávida”, começou por dizer Melissa Eunice, professora numa escola em Chimoio sublinhando que a gravidez ao lado da pobreza estão entre as razões de destaque no abandono escolar por várias raparigas.
Por outro lado a docente Belmira Francisco, destaca as drogas e más amizades como factores determinantes no abandono escolar precoce por isso aconselha a não “abandonar a escola mesmo com muitas dificuldades porque só com a escola é que podemos alcançar um futuro melhor, porque a escola é a decisão da nossa vida”.
Entretanto, o activista da Sociedade Civil, Júlio Fernando alerta para a existência de crianças que desde a tenra idade são obrigadas a assumir o papel de provedor da família o que impacta na sua permanência nas salas de aula. “Uma das questões está ligada ao apoio que elas fazem aos familiares tendo em conta que o acesso à escola tem sido distante e eles acabam deixando de ir à escola para ajudar os seus familiares, nas machambas e negócios” avançou Júlio.
A activista social Salomé Sandramo, diz que muitas das crianças e raparigas tendem a abandonar a escola devido a dificuldades financeiras, violência baseada no género, influências dos pares entre outros motivos. Focando nas uniões prematuras Salomé referiu que “algumas famílias acabam entregando a filha para pagar uma dívida, noutras vezes pode ser falta de condições em casa e ela prefere sumir com alguém que tenha condições”.
Por isso Salomé chama atenção aos pais e encarregados de educação para ssumirem a responsabilidade de educar e cuidar das crianças para que não se desviem, uma acção que deve ser replicada pelas organizações da Sociedade Civil promovendo palestras que ilustrem as consequências das uniões prematuras e do abandono escolar.
Por sua vez, o psicólogo Lenard Jemusse alerta que o abandono escolar precoce pode produzir consequências profundas no desenvolvimento emocional e social das crianças. Segundo explicou, quando uma criança interrompe os estudos, reduz significativamente as suas oportunidades de realização pessoal e profissional, ficando mais vulnerável a situações de exclusão social, pobreza e dependência económica.
O especialista acrescenta que “muitos adolescentes que abandonam a escola enfrentam um sentimento de frustração, baixa autoestima e perda de perspectivas para o futuro”, por isso, defende uma intervenção conjunta entre famílias, escolas, autoridades e organizações da sociedade civil, com vista a criar condições que permitam às crianças permanecerem no sistema de ensino e concretizarem os seus projectos de vida.




