A época chuvosa verificada no primeiro trimestre de 2026 na província de Gaza ficará marcada como uma das mais destruidoras dos últimos tempos. As cheias que fustigaram a província deixaram um rasto de perdas que vai muito além das imagens de campos submersos e estradas cortadas. Meses depois, os efeitos continuam a reflectir-se na economia de Gaza, na vida dos agricultores e nas próprias contas do Estado.
Face a este cenário, a Autoridade Tributária (AT) na província de Gaza foi obrigada a rever em baixa, em cerca de 28%, a meta de arrecadação fiscal definida para esta região do país, uma decisão anunciada pelo presidente da instituição, Aníbal Mbalango para quem avançar com este reajuste “tornou-se imperativo face aos severos prejuízos materiais e operacionais causados pelas intempéries que assolaram aquela parcela do País”.
Mbalango explicou que as metas de arrecadação são sempre definidas tendo em conta a realidade económica específica de cada província por isso com a destruição de infra-estruturas, perdas agrícolas em larga escala e a paralisação de inúmeras actividades produtivas, manter os objectivos iniciais em Gaza, seria inviável.
Empresários pedem flexibilização e agilização do IVA
Os agentes económicos aproveitaram o encontro de trabalho organizado pela AT para pedir maior flexibilização nos procedimentos comerciais, o reforço da comunicação institucional e, com particular urgência, a revisão dos processos de fiscalização e de reembolso do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA).
Para muitos empresários, a demora nos reembolsos de IVA representa um “estrangulamento” adicional à tesouraria das empresas numa altura em que a liquidez é crítica para a sobrevivência dos negócios.
Os participantes defenderam ainda o reforço das acções de educação fiscal, enquadradas na nova reforma tributária, considerada a mais profunda das últimas duas décadas, com vista a incentivar o cumprimento voluntário das obrigações fiscais.
Em resposta, Mbalango começou por reconhecer a classe empresarial como “um parceiro estratégico na mobilização de receitas para os cofres do Estado”, defendendo uma cooperação mútua sublinhando que os procedimentos comerciais devem pautar pelo respeito estrito à legislação e aos direitos dos cidadãos, tendo a transparência como princípio orientador.
Regadio do Baixo Limpopo provoca 23 milhões de meticais em prejuízos
Quando se fala de destruição por cheias em Gaza, não podemos deixar de mencionar o Regadio do Baixo Limpopo. O sistema de irrigação, que abrange uma área de 70 mil hectares distribuídos pelos distritos de Xai-Xai, Limpopo, Chongoene e Chibuto dos quais 17 mil hectares dispõem de infra-estruturas modernas, foi devastado pelas inundações, prejuízos estimados em 23 milhões de meticais.
De acordo com coordenadora de gestão do regadio, Isabel Sitoe, as cheias submergiram toda a área doptada de infra-estruturas, destruindo mais de 8 mil hectares de culturas. O arroz, foi o mais afectado, com perdas que ascendem cerca de 4.200 hectares.
Além de perdas nas culturas, as infra-estruturas de apoio à produção agrícola sofreram danos que comprometem a capacidade do regadio por tempo indeterminado. Segundo Sitoe, as inundações causaram assoreamento em 735 quilómetros de canais e valas de drenagem e danificaram cerca de 200 quilómetros de estradas de acesso, sem as quais os agricultores não conseguem chegar aos seus campos.
Importa destacar que neste momento o dique de protecção é a maior preocupação. A estrutura, que é crucial não apenas para proteger as terras agrícolas mas também para defender a cidade de Xai-Xai de eventuais cheias do rio Limpopo, apresenta actualmente mais de 14 brechas ao longo da sua extensão.
“Qualquer flutuação da maré ou ligeira subida do nível do rio pode voltar a inundar os campos, arriscando a intrusão de água salgada e uma degradação ainda maior dos solos”, alertou a coordenadora.
Cabos roubados paralisam bombagem
Às consequências das cheias somam-se os efeitos do vandalismo. As estações de bombagem sofreram danos consideráveis, agravados pelo roubo de cabos eléctricos das bombas eléctricas, que acabou por paralisar completamente os sistemas. O caso mais grave registou-se na estação de Magula, onde o vandalismo afectou directamente 1.050 hectares de terras agrícolas, deixando centenas de agricultores sem possibilidade de irrigar ou drenar os seus campos.
Apesar da dimensão da devastação, há sinais de que a recuperação está em curso, intervenções de emergência foram lançadas como a distribuição de insumos agrícolas que permitiu que algumas operações comerciais retomassem as actividades.
Com a reabilitação das infra-estruturas, estima-se que cerca de 700 hectares no bloco de Magula e outros 1.200 hectares no bloco de Chicumbane/Car fiquem disponíveis para novos projectos. Para os gestores do regadio, este é um momento que pode servir de ponto de partida para uma modernização e expansão do sistema.





