O Mercado de Malhampsene, no município da Matola, continua longe de cumprir o objectivo para o qual foi construido. Embora disponha de bancas para acolher comerciantes, dezenas de vendedores preferem instalar-se diariamente na berma da estrada, transformando parte da faixa destinada ao estacionamento e à circulação de viaturas num mercado informal. A situação preocupa transportadores e comerciantes instalados no interior do recinto, que denunciam concorrência desleal e prejuízos diversos.
Ao longo da via encontram-se vendedores de hortícolas, frutas, legumes, mariscos e carnes não embaladas, para alem de alimentos já confeccionados, roupas e outros produtos de consumo diário. Grande parte da mercadoria é exposta em bancas improvisadas, construídas com paus, tábuas, lonas e sacos, sem condições adequadas de higiene e segurança. A proximidade com a estrada faz com que os produtos fiquem expostos à poeira levantada pela constante circulação de viaturas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a exposição de alimentos à poeira representa um grave risco à saúde pública. Ele actua como um vector invisível que transporta bactérias, fungos e poluentes químicos directamente para o consumo humano. Instrui que a atenção deve ser redobrada com os alimentos prontos para consumo, frutas e vegetais comercializados sem proteção, e também a manter os produtos cobertos e as superfícies limpas, sendo uma medida crucial para prevenir o surto de doenças transmitidas por alimentos.
Além dos riscos para a saúde pública, a ocupação daquele espaço reduz a área destinada ao parque de estacionamento e à paragem de transportes semi-colectivos de passageiros, dificultando a circulação de pessoas e veículos.
Uma estratégia de sobrevivência.
Sentada debaixo de uma sombra improvisada, dona Sandra, vendedora de hortícolas, explica que a escolha do local está directamente relacionada com a procura dos clientes. “Nós estamos aqui porque é fácil a pessoa nos ver logo e comprar. Muitas pessoas não entram dentro do mercado e podemos não vender bem. Lá dentro está cheio de contentores. É difícil montar saladas, couve e tomate num sítio onde só tem contentores”, afirmou.
A comerciante considera que o modelo de ocupação do mercado não responde às necessidades dos vendedores de produtos frescos, que necessitam de bancas abertas e acessíveis aos consumidores.
A mesma opinião é partilhada por Beatriz, nome fictício de uma jovem comerciante que preferiu não revelar a sua identidade. Segundo ela, o problema não está apenas na dimensão do mercado, mas também na forma como o espaço está organizado.
“O mercado devia ter divisão por sectores. Devia haver um espaço para quem vende verduras, outro para quem vende comida, outro para os contentores e assim sucessivamente. Nós somos muitos e as condições do mercado ainda não estão prontas para nos receber. Primeiro porque é pequeno, depois porque as próprias estruturas não ajudam”, explicou.
Entre os vendedores ambulantes encontra-se também Alberto, jovem que comercializa cocos numa txova. Sem um local fixo, adapta-se diariamente às condições encontradas. “Não tenho lugar fixo. O sítio que encontro vago naquele dia é onde fico. Também dependo do movimento. Às vezes vendo dentro do mercado, mas nem sempre”, contou.
Enquanto os vendedores da estrada justificam a permanência do lado de fora pela necessidade de garantir maiores vendas, os comerciantes que cumprem as regras dentro do mercado dizem sentir-se prejudicados.
No interior do recinto, Marta, acompanhada por outras mulheres que comercializam tomate, alface, pepino, couve e outros legumes, lamenta a falta de clientes e afirma que muitos produtos acabam por se deteriorar antes de serem vendidos.
“O problema de gostar de seguir as regras é que quem não segue acaba por sair a ganhar. As que vendem lá fora, muitas vezes, até às 14 horas já esgotaram os produtos. Nós ficamos aqui com verduras durante dois ou três dias, saímos tarde todos os dias e ainda pagamos as taxas do mercado”, desabafou.
Por se tratarem de produtos altamente perecíveis, as perdas representam um impacto significativo no rendimento diário das comerciantes, que defendem maior fiscalização para incentivar todos os vendedores a utilizarem o espaço formal.
Situação preocua operadores de semi-colectivo
A ocupação da berma da estrada também preocupa os operadores de transporte semi-colectivo de passageiros. Rui Orlando, motorista da rota Hospital Provincial da Matola–Zimpeto, considera que a presença constante de vendedores e compradores junto à via compromete a circulação.
“É uma situação muito preocupante. As pessoas enchem a estrada e criam engarrafamentos. Muitas atravessam de qualquer maneira. Nós, para ganhar tempo, às vezes evitamos passar por aqui. Seria muito melhor se este espaço fosse deixado para os chapas e outros carros circularem à vontade”, afirmou.
Além dos congestionamentos, a circulação intensa de peões fora das zonas apropriadas aumenta o risco de acidentes de viação numa área onde o movimento de veículos é permanente.
Frente a esse cenário, o Conselho Municipal da Matola, ao longo dos últimos anos, através da Polícia Municipal tem realizado sucessivas operações para retirar os vendedores informais daquele espaço e encaminhá-los para os mercados formais, mas as acções pouco alteraram o cenário, uma vez que os comerciantes regressam dias depois aos mesmos locais.
Em declarações antigas, a autarquia reconheceu as dificuldades enfrentadas e garantiu que tomaria medidas permanentes para inverter a situação. Entre elas está a instalação de um posto fixo da Polícia Municipal, funcionando em dois turnos, com vista a impedir a permanência dos vendedores às bermas da estrada e assegurar que a actividade comercial decorra nos locais apropriados, ainda assim, persiste a situação
Em representação da secretaria do Mercado de Malhampsene, Lucas Damião garante que existem condições para acolher novos vendedores e esclarece que o acesso às bancas está aberto a todos os interessados.
Segundo explicou, basta identificar uma banca disponível e solicitar a sua ocupação junto da administração do mercado, sendo posteriormente aplicadas as taxas correspondentes ao tipo de espaço utilizado.
“Basta a pessoa identificar uma banca não ocupada e pedir autorização. Dependendo das condições da banca, terá acesso. Existem taxas diárias e mensais que servem para cobrir a limpeza e outros serviços do mercado”, esclareceu.
Apesar desta disponibilidade, a realidade observada no local revela várias bancas vazias, algumas encerradas e outras poucas ocupadas, contrastando com a elevada concentração de vendedores na parte exterior. (Tomás Pindela)





