Aos 18 anos, Saquina Jamal transformou a própria experiência num aplicativo que pretende aproximar adolescentes e jovens moçambicanos do apoio psicológico, numa tentativa de combater o estigma da saúde mental através da tecnologia.
“O glow up começa na mente”, uma frase que resume a filosofia de Saquina Jamal e a essência do MindGlow. Para muitos jovens, o brilho está na aparência ou na imagem projectada nas redes sociais. Para a jovem estudante de Medicina e empreendedora tecnológica, porém, a verdadeira transformação começa no equilíbrio emocional.
A tranquilidade com que fala esconde a dimensão dos desafios que enfrentou desde cedo. Aos 16 anos, quando ingressou no curso de Medicina Geral no Ensino Técnico Profissional, viu-se obrigada a desenvolver maturidade, disciplina e resiliência para acompanhar um percurso exigente.
Foi durante essa fase que compreendeu que cuidar da mente era tão importante quanto adquirir conhecimentos científicos. Entre aulas, avaliações e dificuldades pessoais, criou hábitos que a ajudaram a enfrentar a pressão do dia a dia.
“Não diria que foi fácil, mas consegui desenvolver ferramentas que me ajudaram a superar os desafios e a manter-me firme”, recorda.
Ao longo da formação, percebeu que muitos colegas enfrentavam dificuldades semelhantes, mas poucos procuravam apoio especializado. Uns por desconhecimento, outros pelo receio de serem julgados. Foi então que nasceu a ideia de criar uma solução capaz de aproximar os jovens dos serviços de saúde mental.
Em 2025, uniu esforços com a startup tecnológica Codesa, sediada na cidade da Beira, para transformar a ideia numa plataforma digital adaptada à realidade moçambicana.
Muito mais do que um aplicativo
Desde o início, Saquina recusou a ideia de criar apenas um espaço para consultas psicológicas. O MindGlow foi pensado como uma plataforma de promoção do bem-estar emocional. O aplicativo reúne psicólogos, nutricionistas e personal trainers, reconhecendo que a saúde mental resulta de diferentes fatores e exige uma abordagem integrada.
“Não precisamos esperar que a crise aconteça para começarmos a cuidar da nossa saúde mental”, afirma.
Além de facilitar o contacto entre utilizadores e profissionais certificados, a plataforma procura incentivar hábitos saudáveis e fortalecer competências como autoestima, inteligência emocional e autoconhecimento.
Segundo a jovem empreendedora, a ferramenta destina-se tanto a pessoas que já enfrentam dificuldades emocionais como àquelas que pretendem prevenir problemas futuros.
A tecnologia ao serviço da saúde mental
Ao abrir o aplicativo, o utilizador pode realizar uma auto-avaliação diária do seu estado emocional. O sistema acompanha a evolução dos sentimentos e identifica padrões ao longo do tempo.
Quando detecta sinais persistentes de tristeza, ansiedade ou desmotivação, apresenta recomendações produzidas por especialistas, incluindo exercícios físicos, meditação, mindfulness e conteúdos educativos sobre saúde mental.
Saquina faz questão de esclarecer que o MindGlow não substitui o trabalho dos psicólogos. “O diagnóstico pertence sempre ao profissional de saúde. O aplicativo ajuda a compreender melhor as emoções e facilita o acesso ao acompanhamento especializado”, explicou a jovem.
Outro dos recursos da plataforma é a Glow Community, uma comunidade virtual onde os utilizadores podem partilhar experiências e apoiar-se mutuamente. Para Saquina, conversar continua a ser uma das formas mais eficazes de aliviar o sofrimento emocional.
“Muitas vezes basta encontrarmos alguém disposto a ouvir-nos para conseguirmos aliviar uma parte da carga emocional”, enfatizou.
Os desafios de transformar uma ideia em realidade
Desenvolver o MindGlow revelou-se muito mais complexo do que imaginar. Um dos principais desafios foi reunir profissionais dispostos a prestar consultas a preços acessíveis, tendo em conta a realidade económica da maioria dos jovens moçambicanos.
“Muitos adolescentes ainda dependem financeiramente dos pais e nem sempre conseguem justificar a necessidade de procurar um psicólogo”, explica.
Depois de vários contactos, a equipa conseguiu reunir especialistas que aceitaram integrar a iniciativa, cobrando valores simbólicos. Outro desafio passa pela organização do lançamento oficial da plataforma, previsto para setembro.
Saquina pretende que o evento tenha dimensão nacional e procura parceiros institucionais e empresariais que possam apoiar a divulgação do projecto em todas as províncias do país.
Um projecto pensado para Moçambique
A simplicidade da plataforma foi uma prioridade desde o primeiro momento. O aplicativo utiliza linguagem acessível, funciona em diferentes modelos de telemóvel e consome poucos dados móveis, permitindo que jovens de diferentes contextos económicos possam utilizá-lo.
Numa primeira fase, estará disponível para Android, seguindo-se posteriormente a versão para iOS. A disponibilização gratuita de várias funcionalidades constitui outra das apostas da equipa. “O acesso à saúde mental não pode depender apenas da condição financeira de cada pessoa”, defende.
Olhar para o futuro com esperança
Os planos de expansão incluem novas funcionalidades, o reforço da rede de profissionais, projetos-piloto em escolas e universidades e a futura integração de ferramentas de inteligência artificial para personalizar recomendações. Saquina acredita que a tecnologia deve ser colocada ao serviço da resolução dos problemas sociais.
“Quase tudo o que pensamos criar já existe noutro lugar. O nosso desafio é adaptar essas soluções à realidade moçambicana”, disse.
Ao terminar a conversa, a jovem regressa à frase que resume toda a sua visão: “O glow up começa na mente”. Mais do que um slogan, é um convite para que adolescentes e jovens compreendam que cuidar da saúde mental é um ato de coragem.
Para Saquina Jamal, é também o primeiro passo para construir uma geração mais resiliente, mais consciente e preparada para enfrentar os desafios do futuro.






