Em Cabo Delgado, a arte continua a resistir aos desafios económicos e sociais que afetam a província. Artesãos, ceramistas e escultores mantêm-se firmes na produção de peças tradicionais e criativas, apesar das dificuldades encontradas para conquistar clientes e garantir a venda dos seus produtos.
A redução do movimento turístico e a menor procura por artigos artesanais são apontadas pelos artistas como alguns dos principais obstáculos para a continuidade desta atividade. Ainda assim, os criadores afirmam que a arte permanece como uma importante ferramenta de sobrevivência, valorização cultural e transmissão de conhecimentos entre gerações.
Entre os artistas que procuram manter viva esta tradição está Arlete Xavier, artesã que se dedica à produção de pastas, carteiras e tapetes feitos à base de capulana. Através deste tecido, associado à cultura moçambicana, a artista transforma materiais simples em peças com valor estético e utilitário, procurando também criar oportunidades para melhorar as condições de vida da sua família.
Arlete explica que, apesar das dificuldades enfrentadas diariamente, as mulheres envolvidas no artesanato continuam a procurar caminhos para garantir o seu rendimento e inspirar outras mulheres a desenvolverem atividades semelhantes. “Os desafios existem, mas nós, como mulheres, procuramos uma forma de poder sustentar as nossas famílias. Através desta arte conseguimos também inspirar outras mulheres”, afirmou.
Para a artesã, o trabalho manual vai além da produção de objetos para venda, representando uma forma de afirmação das capacidades das mulheres e de valorização da criatividade existente nas comunidades locais.
No sector da cerâmica, Agnes Martins destaca-se pela produção de brincos, pulseiras, artigos de cerâmica e outros produtos artesanais, incluindo pequenos objetos decorativos. A artista considera que o atual cenário na província tem dificultado a comercialização das peças, principalmente devido à redução do número de turistas e compradores.
Segundo Agnes, a falta de clientes constitui uma preocupação para muitos artesãos, mas não tem sido suficiente para interromper a produção artística. “Apesar dos desafios atuais na nossa província, como a falta de turistas e clientes, continuamos a fazer valer a nossa arte”, disse.
A ceramista defende que a valorização dos produtos feitos localmente pode contribuir para fortalecer o setor e permitir que mais artistas tenham condições para continuar a desenvolver as suas atividades.
Outro artista que procura manter a tradição artesanal é Alexi Inku, produtor de pulseiras e esculturas. Para ele, a realidade dos últimos anos tem sido marcada por dificuldades na procura de compradores, mas a necessidade de sustentar as famílias e o compromisso com a arte continuam a impulsionar a produção.
“Na verdade, nos últimos anos não tem sido fácil encontrar clientes, mas a arte chama por mais arte. Temos responsabilidades de sustentar as nossas famílias e continuamos a trabalhar para manter viva a arte”, afirmou.
Alexi considera que, apesar das limitações existentes, a arte continua a representar uma forma de expressão e uma oportunidade para os criadores mostrarem o talento local.
Os artesãos defendem que a criação de mais espaços de exposição, maior divulgação dos produtos locais e o incentivo ao consumo de artigos produzidos na província podem ajudar a dinamizar o setor e criar novas oportunidades para os artistas.
Num contexto em que muitos enfrentam dificuldades para escoar a produção, estes criadores continuam a transformar capulana, barro e outros materiais em peças que carregam histórias, identidade e criatividade. Para eles, manter a arte viva significa preservar a cultura de Cabo Delgado e garantir que as futuras gerações possam conhecer e valorizar o património artístico da província.





