O crescimento acelerado das cidades, quando não é acompanhado pela expansão das redes de saneamento e drenagem, está a criar pontos focais favoráveis à proliferação do mosquito transmissor da malária, num problema que ultrapassa a esfera sanitária e expõe fragilidades no ordenamento dos espaços urbanos. A constatação é do epidemiologista e responsável pelo controlo vectorial no Programa da Malária na Cidade de Maputo, Edmundo Micas, que aponta a acumulação de água parada como um dos principais factores associados à reprodução do mosquito.
Micas explicou que a expansão de novos bairros sem infra-estruturas adequadas pode transformar zonas residenciais em ambientes propícios à formação de criadouros, sobretudo durante a época chuvosa.
O especialista considera que o surgimento de novas zonas habitacionais deve ser acompanhado por sistemas de drenagem e saneamento capazes de responder ao aumento da população, sob pena de o crescimento urbano criar novos riscos para a saúde pública. “Quando surgem novos bairros, surgem também problemas de saneamento, e esses problemas podem criar ambientes favoráveis para os mosquitos depositarem os seus ovos”, explicou.
A situação agrava-se quando a água das chuvas fica retida em valas, terrenos baldios, recipientes, pneus e outros espaços onde encontra condições para permanecer durante vários dias. Segundo Micas, o mosquito Anopheles prefere águas com pouco movimento para depositar os seus ovos, tornando determinados pontos de acumulação verdadeiros focos de reprodução. “Os mosquitos preferem colocar os ovos em águas que não tenham muito movimento”, afirmou.
Uma vala de drenagem parcialmente obstruída pode, por exemplo, deixar de cumprir a sua função e transformar-se num espaço adequado para a reprodução dos vectores, sobretudo quando a água permanece estagnada. O mesmo pode acontecer com pneus abandonados, recipientes descobertos ou pequenos reservatórios que acumulam água depois das chuvas e permanecem sem intervenção.
Para o epidemiologista, a questão revela que o combate à malária não pode ser dissociado da forma como as cidades são planificadas e administradas. Quando a expansão dos bairros acontece mais rapidamente do que a instalação de infra-estruturas básicas, os riscos ambientais acabam por se acumular junto das comunidades. É nesse contexto que o saneamento deixa de ser apenas uma questão de qualidade urbana e passa a assumir um peso directo na prevenção de doenças transmitidas por vectores.
Chuvas e alterações climáticas apontadas como factores fundamentais
As chuvas constituem outro factor importante na criação de condições para a reprodução dos mosquitos, particularmente em zonas onde os sistemas de drenagem são insuficientes ou inexistentes. Depois de uma precipitação intensa, a água pode concentrar-se em pequenas depressões do terreno e permanecer durante tempo suficiente para permitir o desenvolvimento das diferentes fases do mosquito.
Micas chama igualmente atenção para a influência das alterações climáticas, que podem modificar as condições ambientais e favorecer a proliferação dos vectores em determinadas regiões. “As mudanças climáticas podem, sim, propiciar a proliferação da população de mosquitos”, afirmou.
O aumento das temperaturas e as alterações nos padrões de precipitação podem criar ambientes mais favoráveis ao ciclo de vida do insecto, sobretudo quando associados a deficiências de drenagem.
A questão não está apenas na quantidade de chuva, mas também na capacidade dos espaços urbanos de encaminhar rapidamente a água para fora das zonas habitadas. Onde essa capacidade é reduzida, cada episódio de precipitação pode deixar para trás novos locais susceptíveis de serem utilizados pelos mosquitos para a deposição dos ovos.
A situação torna-se ainda mais complexa quando os sistemas de drenagem são obstruídos por resíduos sólidos ou quando determinadas áreas urbanas não dispõem de canais funcionais para o escoamento das águas.
Nestes casos, a resposta ao problema não pode limitar-se às estruturas de saúde, uma vez que envolve também decisões relacionadas com ambiente, obras públicas, gestão de resíduos e ordenamento territorial.
A prevenção exige, portanto, que os riscos associados ao mosquito sejam considerados no próprio processo de expansão das cidades, antes que novos bairros consolidem problemas difíceis e dispendiosos de corrigir.
Os mosquitos proliferam-se no tempo quente
A temperatura constitui igualmente um elemento determinante no desenvolvimento dos mosquitos, contribuindo para explicar a maior presença destes insectos durante os períodos mais quentes do ano.
Segundo Micas, o ciclo de desenvolvimento é mais rápido quando as temperaturas são elevadas, fazendo com que os ovos possam eclodir num período significativamente inferior ao registado durante os meses frios. “No verão, os ovos dos mosquitos eclodem mais facilmente. No inverno, o processo é mais lento”, esclareceu.
De acordo com o especialista, durante o inverno o processo de eclosão pode levar mais de dez dias, enquanto no verão pode ocorrer em menos de sete dias ou até cerca de cinco dias, dependendo das condições ambientais.
A diferença ajuda a compreender por que razão a população de mosquitos tende a aumentar durante o verão, período em que o calor acelera determinadas fases do seu ciclo de vida. Isso não significa, contudo, que os mosquitos desapareçam durante o inverno, uma vez que continuam a existir locais onde encontram água, abrigo e condições mínimas para sobreviver.
O factor temperatura deve, por isso, ser analisado em conjunto com a disponibilidade de água e as características ambientais de cada comunidade. A combinação entre calor, precipitação e água acumulada pode criar uma espécie de ciclo favorável à multiplicação dos vectores, sobretudo em zonas com saneamento precário.
O cenário coloca novos desafios às autoridades sanitárias, que precisam de antecipar os períodos de maior risco e ajustar as intervenções de controlo vectorial às condições observadas no terreno. Mais do que reagir ao aumento da presença de mosquitos, a prevenção exige capacidade para identificar previamente os ambientes onde o ciclo de reprodução poderá ser acelerado.
Combate não pode ficar apenas nas mãos da saúde
Outro elemento que torna o controlo dos mosquitos mais complexo é a diversidade de comportamentos das diferentes espécies, sobretudo no que diz respeito à alimentação e aos locais onde procuram os seus hospedeiros.
Micas explica que alguns mosquitos têm preferência pelo sangue humano, enquanto outros podem alimentar-se de animais, dependendo das condições encontradas no ambiente. “Há mosquitos que podem alimentar-se do sangue de animais, como o da vaca, desde que consigam obter sangue para sobreviver e reproduzir-se”, afirmou.
Essa capacidade de adaptação demonstra que o controlo dos vectores exige conhecimento sobre os seus hábitos, incluindo os horários e os espaços utilizados para alimentação e reprodução. Enquanto determinadas espécies procuram alimentar-se no interior das habitações, outras podem permanecer no exterior e recorrer a diferentes hospedeiros.
Esta diversidade reduz a eficácia de uma resposta concentrada exclusivamente dentro das casas e exige uma intervenção que considere também os espaços públicos e os ambientes periféricos. É neste ponto que o combate à malária ultrapassa claramente a responsabilidade exclusiva do sector da saúde, uma vez que muitos dos factores que favorecem a presença dos vectores estão relacionados com condições ambientais.
Municípios, autoridades de saneamento, estruturas de ordenamento territorial e comunidades precisam de participar numa resposta integrada, capaz de reduzir os locais de reprodução antes que estes contribuam para o aumento da transmissão. A limpeza regular das valas, a melhoria da drenagem, a remoção de resíduos e a eliminação de recipientes que acumulam água constituem medidas simples, mas que exigem continuidade e fiscalização.
A responsabilidade comunitária também é importante, sobretudo na eliminação de pequenos focos existentes nas proximidades das habitações, mas não deve servir para substituir a obrigação das autoridades de garantir infra-estruturas urbanas adequadas.
O desafio passa, finalmente, por deixar de combater apenas as consequências e atacar as condições que permitem ao mosquito reproduzir-se. Sem cidades melhor planeadas, saneamento funcional e vigilância permanente dos pontos de risco, a luta contra a malária continuará a enfrentar um adversário que encontra, no próprio ambiente urbano, condições para se multiplicar.






