O que começou como uma tentativa de fazer dinheiro terminou numa tragédia que deixou uma família mergulhada em dor. No bairro de Nangala, arredores da cidade de Lichinga, província do Niassa, a expectativa de transformar uma aposta em lucro acabou associada à morte de um jovem de 25 anos. O jovem terá apostado cerca de 90 mil meticais no jogo conhecido como “aviator”, depois de confiar o dinheiro a um cidadão, ainda não identificado, para efectuar o depósito através de uma carteira móvel. A aposta começou com pequenas quantias, alimentada pela expectativa de ganhar e pela sensação de que era possível controlar o jogo.
Mas o que parecia ser uma oportunidade de lucro rapidamente se transformou numa corrida contra a perda. À medida que o dinheiro desaparecia, crescia também a pressão sobre o jovem, que tinha assumido um compromisso relacionado com o montante. Na tentativa de recuperar o valor perdido, continuou a apostar, mas não conseguiu reaver o dinheiro.
A situação acabou por mergulhar o jovem num estado de forte desespero. Mais tarde, já na sua residência e sem familiares presentes, morreu, deixando para trás uma família que ainda tenta compreender como uma aposta acabou por mudar para sempre a história daquela casa onde o silêncio parece ter substituído os planos que antes preenchiam os dias.
Para os pais, não desapareceu apenas um filho. Com ele, foram interrompidos sonhos, projectos e expectativas construídas ao longo de 25 anos. Pedro Joaquim, membro da família, fala com dificuldade sobre a perda. “Nós, como familiares, a perda não representa apenas a ausência do nosso filho, mas também o desaparecimento de sonhos que ainda estavam por se realizar nesta casa. Até agora não estamos a entender nada”, disse.
A morte do jovem, não deixou apenas uma casa mergulhada no silêncio, a tragédia atravessou a família, abalou amigos, vizinhos e despertou preocupação entre os membros da comunidade que partilhavam momentos de convivência, sonhos e dificuldades com a vítima é agora recordado apenas através das memórias e levanta várias preocupações sobre as consequências de uma prática que continua a ganhar espaço entre os jovens.
Justino Pedroso, vizinho e amigo do jovem, afirma que “a morte do nosso amigo representa uma ruptura inesperada, brincávamos juntos, os encontros faziam parte da nossa rotina e hoje apenas recordamos”.
Entre os vizinhos, o sentimento é igualmente de consternação. Lúcia Liquinel diz que a notícia espalhou-se pela comunidade “como um vento frio”, deixando tristeza, preocupação e muitas perguntas sobre os riscos associados aos jogos de azar entre os jovens. “É uma situação que nos deixa muito tristes. Ninguém esperava que algo assim pudesse acontecer. Estamos todos consternados e queremos saber o que realmente aconteceu”, lamentou a entrevistada.
Outro morador, visivelmente abalado é Abdul Jaime o qual disse que a morte deixou a comunidade em choque. “É doloroso perder uma pessoa desta forma. Esperamos que as autoridades esclareçam o caso e que a família encontre forças para superar este momento difícil”, afirmou.
Enquanto a família tenta lidar com a perda, as autoridades procuram esclarecer as circunstâncias que antecederam a morte e a origem dos 90 mil meticais envolvidos no caso. O porta-voz do Comando Provincial da PRM no Niassa, Nelson de Sousa, assegurou que as circunstâncias da morte estão a ser investigadas, com vista ao esclarecimento dos factos e à identificação da proveniência do montante.
“É importante que sejam esclarecidas todas as questões relacionadas com o montante em causa e que se determine a quem pertence”, explicou Nelson de Sousa e deixou ainda um vigoroso apelo à comunidade para que colabore com as autoridades prestando todo o tipo de informação que pode ajudar nas investigações para o esclarecimento do caso.
Quando a aposta deixa de ser apenas um jogo
Para o psicólogo e activista social Soares Zacarias, o caso deve servir de alerta para uma realidade que, segundo explica, merece maior atenção: os efeitos das apostas e dos jogos de azar na internet entre os jovens. O especialista considera que factores como dificuldades económicas, desemprego e a procura de alternativas para melhorar as condições de vida podem contribuir para tornar as apostas mais atractivas.
Segundo Soares Zacarias, o problema não deve ser encarado apenas como uma decisão individual. Famílias, escolas, líderes comunitários, organizações da sociedade civil e instituições públicas também têm um papel importante na prevenção de comportamentos considerados de alto risco relacionados com os jogos de azar.
“O jogador pode começar com pequenas quantias, acreditando que possui controlo sobre a situação. Depois de uma vitória, a confiança aumenta. Nessa altura, o voo sobe, os números aumentam e, durante alguns segundos, o jogador sente que está diante da oportunidade de mudar a sua vida”, explicou.
Mas, o psicólogo, alerta que o mesmo voo pode terminar abruptamente. “O voo também pode terminar subitamente, levando consigo o dinheiro apostado e, por vezes, depois de uma perda, surge a vontade de recuperar o dinheiro, mas não consegue e leva à frustração”, disse.
Pelo que o especialista defende maior sensibilização sobre os riscos do jogo compulsivo e mecanismos de apoio para pessoas que desenvolvem comportamentos prejudiciais relacionados com as apostas porque em muitas famílias, segundo afirma, o dinheiro destinado à alimentação, transporte, educação ou outras necessidades pode acabar canalizado para estes jogos.





