No Posto Administrativo de Chiúta, distrito de Mecanhelas, na província do Niassa, dar à luz está longe de ser apenas um momento de alegria, os residentes contam que várias gestantes percorrem entre 15 e 20 quilómetros à procura de uma unidade sanitária onde possam realizar um parto com segurança. Uma distância que, em condições normais, já seria difícil de vencer, mas que se torna ainda mais dramática quando é percorrida por uma mulher carregando no ventre uma vida prestes a nascer.
Segundo os relados de algumas mulheres ouvidas pela nossa reportagem, a gravidez, que deveria representar esperança e alegria de uma família, é acompanhada por várias preocupações entre o nascimento de uma criança que começa com uma corrida contra o tempo. A distância transforma-se num verdadeiro calvário de sofrimento e incerteza onde cada quilómetro percorrido, cresce o risco de vida da gestante e do seu bebé devido aos quilómetros de distância que separam algumas comunidades da maternidade mais próxima. Uma distância que, para uma pessoa saudável, pode representar apenas uma longa caminhada, mas para uma mulher em trabalho de parto pode colocar uma fronteira perigosa entre a vida e a morte.
A história de Maria Zacarias é um retrato de tantas outras realidades da região. Conta com um tom de preocupada que recentemente, uma familiar foi obrigada a dar à luz em casa porque não havia transporte para levá-la à unidade sanitária. Aliás, a ausência de maternidades próximas contribui para que algumas mulheres optem por dar à luz em casa, muitas vezes sem a assistência de profissionais qualificados, uma decisão que é determinada em circunstâncias que aumenta os riscos para a mãe e para o recém-nascido. “No mês passado sofremos muito. Minha cunhada ficou a dar parto em casa devido à distância. Como o serviço do parto começou à noite, não tivemos como arranjar uma mota para levar ela”, revelou a fonte.
O relato de Maria revela ainda que, em Chiúta, o problema não termina na existência ou não de uma maternidade, quando a emergência chega à noite, a estrada torna-se ainda mais longa e o transporte pode simplesmente desaparecer e quando não há mota, ambulância ou outro meio de transporte, a mulher fica entregue à própria sorte.
“Pedimos que o Governo faça qualquer coisa, porque estamos a sofrer muito”, aclamou a fonte tendo frisado que as comunidades precisam de unidades sanitárias acessíveis, melhores vias de acesso, transporte para emergências obstétricas e profissionais preparados para responder às necessidades das mulheres.
A preocupação também bate à porta do senhor Hilário Silva, pai de três filhos, cuja esposa está grávida. Para ele, a gravidez, que deveria ser motivo de esperança, virou rotina de medo, ao referir que, não sabe o que fazer no dia em que sua esposa irá sentir dores do parto uma vez que não tem condições de transporte e o percurso é feito a pé e outras dependem da solidariedade de familiares ou vizinhos.
Hilário acrescenta que o problema não afecta apenas a sua família. Segundo ele, toda a população enfrenta dificuldades para encontrar uma maternidade por isso o seu pedido é directo: “Nós não pedimos muito. Pedimos um hospital que vai nos ajudar a resolver nossos problemas de doença”, pede a fonte.
A insatisfação dos moradores vai além da saúde, Ângelo Mussa afirma que a comunidade já apresentou várias vezes a sua preocupação às autoridades, mas, segundo ele, sem resultados visíveis. “Já pedimos várias vezes ao Governo, principalmente quando vem a governadora, mas nada se falou”, anotou Ângelo declarando que a falta de respostas criou entre os residentes uma sensação de abandono.
Preocupações legitimas e promessas por cumprir
A enfermeira de Saúde Materno Infantil do posto administrativo de Chiúta, distrito de Mecanhelas, Fatucha Minosa, diz estar ciente das dificuldades enfrentadas pelas gestantes daquela região da província do Niassa. “As gestantes percorrem longas distâncias para chegarem à maternidade. No caso das comunidades de Satema, Mungora, entre outras comunidades, as mulheres percorrem 15 a 20 quilómetros para chegar à maternidade. A situação complica-se ainda mais se as dores do parto iniciarem à noite”, avançou.
Segundo a infermeira, apesar das dificuldades, o Centro de Saúde de Chiúta não registou partos fora da maternidade, atribuindo o resultado às palestras de sensibilização realizadas nas comunidades. De Janeiro a Julho deste ano, a maternidade assistiu 358 partos institucionais, número que representa, segundo a enfermeira, um crescimento de 15% em relação ao mesmo período do ano passado.
Por outro lado Minosa, fez saber que a sala de parto dispõe apenas de três camas e enquanto a sala de puerpério tem igualmente três. Segundo a profissional, seriam necessárias pelo menos cinco camas para responder a demanda porque “quando surgem complicações, algumas mulheres precisam de ser evacuadas para Mecanhelas, num mês, em caso de complicação durante o trabalho de parto, o centro faz duas ou três evacuações para o hospital de Mecanhelas”.
Outro problema levantado pela enfermeira diz respeito ao estado da infra-estrutura. “Durante a época chuvosa, as infiltrações de água no tecto dificultam o trabalho das parteiras e comprometem as condições oferecidas às parturientes” relevou a enfermeira e pede intervenção urgente das autoridades.
Quem passou recentemente pela sala de parto também conhece essas dificuldades, Deolinda Mateus, que deu à luz na maternidade de Chiúta, confirma a necessidade de melhorar as condições da unidade sanitária. “A sala de parto precisa de novos colchões e da reabilitação da sala para as mulheres terem um parto seguro, por isso nós não pedimos muito. Pedimos um hospital que vai nos ajudar a resolver nossos problemas”, acrescentou.
A governadora do Niassa, Judite Massengele, que visitou recentemente o Centro de Saúde e a maternidade de Chiúta, reconheceu a necessidade de melhorar o tecto e disponibilizar novos colchões e assegurou a alocação de uma ambulância para facilitar a evacuação de pacientes. “Reconhecemos que há várias dificuldades das comunidades, vamos trabalhar para resolver essas preocupações, há necessidade sim, de melhorarmos o tecto da maternidade e alocação de novos colchões, também precisamos de uma ambulância para a evacuação dos pacientes para o distrito vizinho de Cuamba”, afirmou a governante.
Chiúta tem actualmente sete centros de saúde, mas a realidade das gestantes mostra que ainda existem comunidades onde o acesso aos serviços de saúde materna continua distante e enquanto as comunidades esperam respostas concretas das autoridades competentes, a construção ou expansão de serviços de saúde próximos das comunidades, a melhoria das vias de acesso e a disponibilidade de transporte para emergências obstétricas, as mulheres continuam sujeitas aos riscos da distância e dos partos fora das maternidades.





