O Presidente do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, Nataniel Ngomane, considera que Moçambique continua a enfrentar uma contradição histórica entre o discurso de valorização da identidade nacional e a reduzida presença das línguas moçambicanas nos principais espaços de poder, educação e produção de conhecimento, situação que, na sua óptica, reflecte a persistência de modelos culturais herdados do período colonial.
As declarações foram feitas durante uma conversa com o IsocNews, na qual o académico abordou os desafios ligados à preservação e valorização das línguas nacionais no contexto da construção do Estado moçambicano.
Para Ngomane, mais de 50 anos após a independência nacional, o país continua a privilegiar uma lógica linguística que favorece o português, enquanto as línguas faladas pela maioria da população permanecem relegadas para os espaços familiares e informais.
O académico entende que essa realidade levanta questões profundas sobre a forma como os moçambicanos se relacionam com a sua própria herança cultural. “Onde estão as nossas línguas? Seria muito bonito e muito interessante se nós aqui estivéssemos a falar em xiTswa, que é a minha língua materna, e não na língua dos outros”, afirmou.
A interrogação surge num momento em que o debate sobre identidade cultural volta a ganhar espaço em vários países africanos, particularmente entre académicos que defendem uma maior valorização dos idiomas locais nos sistemas educativos e administrativos.
Na visão de Ngomane, a questão linguística ultrapassa largamente a dimensão comunicacional. Trata-se, segundo explicou, de uma matéria relacionada com soberania cultural, produção de conhecimento e afirmação das identidades colectivas.
O académico considera preocupante que muitas das línguas moçambicanas continuem praticamente ausentes da administração pública, dos tribunais, das universidades e de grande parte do sistema de ensino.
Essa ausência, acrescenta, acaba por criar barreiras invisíveis entre o Estado e uma parte significativa da população. Segundo o responsável, a adopção quase exclusiva do português nos espaços institucionais contribui para perpetuar uma hierarquia cultural que atribui maior prestígio às línguas estrangeiras do que aos idiomas nacionais.
“Será que eles em Portugal falam xiTswa, falam ronga? Será que em Inglaterra ou nos Estados Unidos falam português?”, questionou.
Para Ngomane, a resposta a estas perguntas expõe uma assimetria que continua a marcar a relação dos países africanos com as antigas potências coloniais.
O académico sustenta que, em muitos casos, os africanos foram levados a acreditar que o domínio de uma língua estrangeira constitui um sinal de progresso, enquanto o uso das línguas locais permanece frequentemente associado ao atraso ou à informalidade.
Essa percepção, observa, não surgiu de forma espontânea. É o resultado de décadas de políticas coloniais que procuraram impor determinados modelos culturais e linguísticos às populações locais.
Embora os contextos políticos tenham mudado após as independências, Ngomane considera que parte dessa herança continua presente nas instituições e nas mentalidades. “O problema não é aprender outras línguas. O problema é esquecer as nossas”, defendeu.
O académico esclarece que a sua posição não representa uma rejeição do português, língua que reconhece como um importante instrumento de unidade nacional.
Contudo, entende que a valorização do português não deve ocorrer à custa da marginalização das restantes línguas faladas no território nacional.
Moçambique possui mais de duas dezenas de línguas nacionais, utilizadas diariamente por milhões de cidadãos e transmitidas entre gerações como parte fundamental do património cultural do país. Apesar dessa riqueza, a presença desses idiomas na esfera pública continua reduzida.
O cenário contrasta com experiências observadas em várias economias emergentes da Ásia.
“Os chineses falam mandarim. Os japoneses falam japonês. Os coreanos falam coreano. Porque é que nós temos de falar as línguas dos outros?”, questionou.
Para Ngomane, os exemplos da China, Japão e Coreia do Sul demonstram que a valorização das línguas nacionais não constitui um obstáculo ao desenvolvimento económico, científico ou tecnológico.
Pelo contrário, argumenta que a utilização dos idiomas próprios pode fortalecer a capacidade de produzir conhecimento adaptado às realidades locais.
O académico defende igualmente que uma maior integração das línguas nacionais no sistema educativo poderá contribuir para melhorar os níveis de aprendizagem, sobretudo nas fases iniciais da escolarização.
Diversos estudos internacionais apontam que as crianças tendem a aprender com maior facilidade quando os primeiros processos de alfabetização ocorrem na sua língua materna.
Em Moçambique, organizações académicas e culturais têm defendido há vários anos a expansão do ensino bilíngue e a produção de materiais educativos em línguas nacionais.
Apesar de alguns avanços registados nos últimos anos, especialistas consideram que as políticas públicas continuam aquém do potencial linguístico existente no país.
Para Ngomane, a preservação das línguas nacionais não deve ser vista apenas como uma preocupação cultural. Na sua perspectiva, trata-se de uma questão estratégica ligada à construção da cidadania, à inclusão social e ao fortalecimento da identidade nacional.
“A língua é memória, é identidade e é poder. Um povo que abandona a sua língua corre o risco de perder parte da sua própria história”, advertiu.
As declarações do presidente do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa reabrem um debate que acompanha Moçambique desde a independência: como conciliar o papel unificador do português com a necessidade de conferir maior visibilidade e reconhecimento às línguas que constituem a base da diversidade cultural do país.








