Por Celso Chinai
Moradores do bairro da Mafalala, no distrito municipal KaMaxaquene, denunciam dificuldades persistentes no acesso à água potável há cerca de dois anos. A situação, segundo as residentes ouvidas pela reportagem, tem vindo a agravar-se gradualmente, afectando cada vez mais famílias e obrigando muitas delas a recorrer a fontes alternativas para satisfazer necessidades básicas.
Além da escassez do líquido, os moradores queixam-se da cobrança de facturas elevadas, mesmo quando a água não chega às suas residências.
Um grupo de senhoras, entre elas Estér Zimia e Flávia, relatou que o abastecimento de água no quarteirão é irregular devido à falta de pressão. Segundo explicaram, a água não consegue subir pelas torneiras das residências e acreditam que o problema esteja relacionado com a tubagem principal que abastece a zona.
As moradoras afirmaram que a situação se prolonga há cerca de dois anos e que, apesar das sucessivas reclamações, ainda não foi encontrada uma solução definitiva.
“Apoderaram-se do meu tubo para tirarem água”
Uma residente que pediu anonimato contou que, durante algum tempo, ainda conseguia receber água na sua residência. No entanto, devido à falta de abastecimento nas casas vizinhas, algumas pessoas passaram a utilizar a sua ligação para conseguir obter água.
A entrevistada explicou que não teve como impedir a situação, uma vez que muitas famílias enfrentavam o mesmo problema. Acabou, inclusive, por passar a recolher água no seu próprio tubo, tal como os restantes moradores.
Flávia responsabiliza o extinto Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG) pela alegada má instalação das tubagens e considera que os moradores recorrem à retirada de água directamente dos tubos por falta de alternativas.
Segundo a residente, ninguém adopta essa prática por vontade própria, mas sim por necessidade. Por isso, apelou às entidades competentes para intervirem e encontrarem uma solução para o problema. “As pessoas não tiram água nos tubos por gostar”, lamentou.
As entrevistadas afirmaram ainda que a crise se tem agravado, atingindo novos quarteirões. Segundo relataram, famílias que anteriormente tinham água nas suas casas passaram a integrar as longas filas formadas nos pontos de abastecimento improvisados.
“As facturas nunca foram baixas”
Além da falta de água, os moradores denunciam a chegada contínua de facturas consideradas elevadas. Estér Zimia afirmou que muitas famílias recebem cobranças que variam entre 500 e 1.000 meticais, havendo casos em que os valores atingem 3.000 ou até 4.000 meticais.
A residente explicou que, apesar da água não chegar regularmente às torneiras, as cobranças continuam a ser efectuadas. Como exemplo, referiu que a última factura recebida na sua residência foi de 2.000 meticais e recordou que, numa ocasião anterior, chegou a receber uma cobrança de 4.000 meticais referente a apenas um mês.
Segundo acrescentou, os técnicos continuam a realizar leituras em casas onde praticamente já não existe abastecimento regular. Por essa razão, disse ter solicitado que deixassem de efectuar essas visitas.
Outra moradora relatou ter sido informada sobre uma dívida acompanhada de uma multa avaliada em 55 mil meticais, sem condições para efectuar o pagamento, decidiu autorizar o corte da ligação. Contudo, afirma que, mesmo após a interrupção do fornecimento, as facturas continuam a chegar à sua residência.
A entrevistada questiona como é possível continuar a receber cobranças quando não dispõe de abastecimento de água.
As residentes afirmaram que apenas algumas casas da Mafalala continuam a receber água regularmente. No quarteirão visitado pela reportagem, dizem que praticamente nenhuma residência possui abastecimento normal.
Segundo explicaram, muitas famílias acumulam dívidas relacionadas com o serviço e defendem que deveria existir um mecanismo de pagamento mais acessível, com prestações ajustadas à realidade económica dos moradores.
As entrevistadas reconhecem que retirar água directamente dos tubos não é o procedimento correcto. Contudo, argumentam que a prática surge como último recurso diante da falta de alternativas. Nas suas palavras, “cortamos os tubos por sede”.
As moradoras alegam ainda que os responsáveis pelo serviço deixaram de visitar a zona e acreditam que isso possa estar relacionado com o descontentamento crescente da população.
“Vivemos nos arredores da cidade, mas não temos água”
As entrevistadas afirmaram que a sobrevivência de muitas famílias depende actualmente da solidariedade de proprietários de furos de água existentes na zona. Segundo relataram, são esses cidadãos que permitem o acesso gratuito ao líquido, evitando uma situação ainda mais grave.
As residentes referiram também que recentemente uma mesquita teria sido multada por permitir que a população recolhesse água nas suas instalações, situação que consideram injusta. Questionam ainda o que classificam como penalização daqueles que procuram ajudar a comunidade.
Na opinião das moradoras, sem o apoio dos proprietários de furos de água, a situação seria muito mais difícil para centenas de famílias.
“No tempo de Samora Machel havia fontanárias em cada bairro”
Recordando períodos anteriores, algumas entrevistadas afirmaram que durante o tempo do antigo Presidente Samora Machel existiam fontanárias distribuídas pelos bairros para apoiar famílias sem condições de acesso à água canalizada.
Na avaliação das moradoras, esse modelo permitia responder melhor às necessidades das populações mais vulneráveis, realidade que, segundo elas, foi sendo reduzida ao longo dos anos.
Enquanto aguardam por uma solução definitiva, os moradores da Mafalala continuam a enfrentar diariamente dificuldades para obter água potável, um recurso essencial para a higiene, saúde e qualidade de vida das famílias.







