A crescente proliferação do corvo indiano nas principais cidades costeiras de Moçambique está a preocupar ambientalistas, empresários e instituições ligadas à conservação do meio ambiente. Considerada uma espécie invasora e nociva, esta ave exótica tem vindo a expandir-se rapidamente em locais como Maputo, Matola, Beira, Nacala-Porto e Pemba, provocando impactos na biodiversidade, na agricultura, na pesca, na saúde pública e no sector turístico.
Além de atacar espécies nativas e causar prejuízos económicos, os corvos indianos tornaram-se uma autêntica “dor de cabeça” para restaurantes e hotéis, onde roubam alimentos, ocupam áreas de lazer e perturbam clientes e visitantes. Apesar da existência de um regulamento que prevê medidas de controlo, especialistas alertam que a sua implementação continua insuficiente, permitindo o agravamento do problema.
O ambientalista Carlos Serra defende que o combate ao corvo indiano deve assentar numa estratégia nacional e municipal bem definida, em vez de acções isoladas e pontuais. Segundo explicou, a elaboração dessa estratégia passa pela definição de objectivos concretos, actividades específicas e, sobretudo, por um diagnóstico aprofundado da realidade em cada localidade afectada.
Entre as prioridades, Serra destaca a necessidade de mapear as áreas onde estas aves se concentram, identificar os ninhos, conhecer os bairros mais afectados e compreender os factores que favorecem a sua proliferação.
O especialista refere que a disponibilidade de alimento é um dos principais elementos que atraem estas aves. Por isso, considera fundamental melhorar a gestão de resíduos sólidos urbanos, uma vez que lixeiras e depósitos de lixo constituem importantes fontes de alimentação para a espécie.
De acordo com Carlos Serra, o problema já não se limita à capital do país, porque além de Maputo e Matola, a espécie está a expandir-se rapidamente para Marracuene e encontra-se igualmente presente na Beira, Nacala-Porto e Pemba.
O ambientalista entende que cada uma destas cidades apresenta realidades próprias, o que exige respostas adaptadas às suas características específicas. Com isso, considera indispensável conhecer o estágio da infestação em cada localidade e definir medidas adequadas ao contexto local. O corvo-indiano chegou à costa moçambicana através do transporte marítimo e, graças à sua elevada capacidade de adaptação, encontrou condições favoráveis para se estabelecer e multiplicar-se ao longo do litoral do país.
Inteligência da ave dificulta medidas de controlo
Um dos maiores desafios apontados pelos especialistas é a inteligência da espécie. Carlos Serra explica que o corvo indiano possui capacidades cognitivas notáveis, sendo frequentemente comparado a uma criança de cerca de cinco anos de idade.
“Estamos diante de uma ave extremamente inteligente, e calcula-se que tenha uma inteligência igual ou superior à de uma criança de cinco anos de idade. Ela reconhece pessoas, guarda memórias, consegue abrir torneiras, manejar objectos e vive em grupos”, afirmou.
Estas características permite-lhe contornar facilmente métodos tradicionais de controlo pelo que Serra acrescenta que uma das razões que explica o sucesso da espécie é a sua organização colectiva. Diferentemente do corvo bicolor, conhecido localmente como corvo de gravata branca, o corvo-indiano procura alimento e defende os seus ninhos em grupo, podendo reunir centenas de indivíduos para enfrentar ameaças.
Prejuízos para a fauna, agricultura e saúde pública
Os impactos da presença desta espécie invasora são múltiplos. Na fauna, os corvos indianos atacam ninhos de aves nativas, alimentam-se de ovos e crias, além de serem predadores de pequenos répteis e anfíbios. Na agricultura, são responsáveis pelo consumo de sementes e danos em culturas de subsistência. Já nas comunidades piscatórias, atacam o peixe colocado a secar, reduzindo os rendimentos das famílias que dependem desta actividade.
A proximidade com lixeiras e zonas urbanas também levanta preocupações sanitárias. Por frequentarem ambientes contaminados, estas aves podem transportar agentes patogénicos e contribuir para a contaminação de reservatórios de água.
O seu controlo pode ser feito, de igual modo, mediante o Decreto n.º 51/2021, que estabelece o Regulamento de Protecção, Conservação e Uso Sustentável da Avifauna. O documento classifica oficialmente o corvo indiano como espécie exótica invasora e prevê mecanismos para o seu controlo.
Entre as medidas previstas constam a criação de programas de combate a espécies invasoras, a autorização para eliminação destas aves por entidades públicas e a adopção de acções urgentes em situações de risco para a saúde pública.
Contudo, Carlos Serra considera que a principal dificuldade reside na falta de implementação efectiva do regulamento. O ambientalista recorda que os primeiros alertas sobre a expansão da espécie foram lançados ainda nos anos 2006 e 2007 por investigadores da Universidade Eduardo Mondlane. Desde então, vários especialistas têm chamado a atenção para o problema, mas as acções concretas continuam limitadas.
Segundo afirmou, existe actualmente um reconhecimento da gravidade da situação por parte de algumas instituições, mas ainda falta transformar essa preocupação em planos de trabalho e orçamentos específicos.
“Já estamos a gerir prejuízos”
Para Carlos Serra, o país já ultrapassou a fase da prevenção e enfrenta agora as consequências da falta de intervenção atempada. O especialista alerta que a população do corvo indiano continua a crescer sem controlo eficaz, ameaçando cada vez mais a biodiversidade nacional e colocando pressão sobre espécies nativas.
Entre as medidas apontadas para reduzir a infestação estão o desmantelamento de ninhos, a captura selectiva das aves e outras formas de controlo que deverão integrar uma estratégia coordenada e sustentada.
Por outro lado, deve haver maior envolvimento das autoridades, municípios e comunidades na gestão dos resíduos urbanos e na sensibilização pública, de modo a reduzir as condições que favorecem a expansão desta espécie invasora. A preocupação aumenta à medida que o corvo indiano continua a ocupar novos territórios ao longo da costa moçambicana, tornando cada vez mais urgente a implementação de medidas eficazes para travar a sua propagação. (Celso Chinai)








