O Bispo da Diocese de Lichinga, Dom Atanásio Canira, lançou duras críticas ao actual estágio da qualidade de educação das crianças que vivem nas zonas recônditas da província de Niassa, denunciando a falta de escolas em comunidades remotas, a exclusão de milhares de crianças do sistema de ensino e aprendizagem bem como alegados casos de absentismo de professores, situação que, segundo ele compromete seriamente o desenvolvimento do país.
As declarações foram feitas durante a celebração da missa de ordenação de três diáconos da Igreja Católica, cerimónia que reuniu membros do Governo, fiéis, sacerdotes, amigos e familiares provenientes de várias paróquias da Diocese de Lichinga onde o altar transformou-se numa tribuna de denúncia social, deixando de lado a habitual homilia centrada apenas na espiritualidade para dirigir duras críticas ao sistema de educação no Niassa.
Aas declarações do bispo colocam em evidência os persistentes desafios enfrentados pelo sector da educação ao nível do país, sobretudo, nas rurais, onde a insuficiência de escolas, a escassez de professores e fraca fiscalização minam a qualidade de ensino.
Segundo o prelado, a realidade do sector da educação nas comunidades marca as profundas desigualdades entre os discursos oficiais e as condições vividas pelas populações onde crianças são obrigadas a percorrer longas distancias para encontrar uma escola, um factor que contribui para o abandono escolar.
“Recentemente visitei os distritos de Metarica, Cuamba e Lago. O que vimos deixa muito a desejar. Há muitas crianças que não estudam por falta de escolas e isso significa que há exclusão de crianças do ensino e da aprendizagem na nossa província”,lamentou.
O líder religioso dirigiu também críticas ao alegado absentismo de alguns professores, afirmando que existem docentes que apenas comparecem às escolas durante dois dias por semana, deixando os alunos sem aulas no restante período laboral. “O mais caricato é que temos professores que não dão aulas. Só vão ao serviço na segunda-feira e na terça-feira, e o restante dos dias estão em casa, comprometendo o futuro do país”, denunciou Dom Canira.
O prelado foi mais longe ao afirmar que aqueles que recebem salários sem cumprirem integralmente as suas obrigações estão a lesar o Estado. “Como é que um professor trabalha apenas dois dias por semana enquanto recebe salário de trinta dias? Temos de ser conscientes daquilo que estamos a fazer”, criticou o religioso.
Dom Atanásio Canira considera que tais práticas representam um prejuízo para o Estado e para as comunidades, defendendo maior responsabilidade e responsabilização dos profissionais da educação e um reforço da fiscalização pelas autoridades competentes.
Aliás Dom Canira revelou ter partilhado estas preocupações com a administradora do distrito de Metarica e anunciou que pretende levar o assunto às autoridades competentes, apelando à adopção de medidas concretas para melhorar a qualidade da educação.
Relacionando a qualidade da educação com a formação dos futuros sacerdotes, o bispo procurou demonstrar que a crise educativa produz consequências que ultrapassam o sector do ensino.
“Nunca vamos ter diáconos e padres na nossa província enquanto a qualidade do ensino nas escolas não melhorar. Precisamos de melhorar a qualidade do ensino nas nossas comunidades”, concluiu.
O líder religioso defendeu que o fortalecimento do sistema educativo constitui uma condição indispensável para o desenvolvimento humano e social da província e na sua perspetiva, uma educação deficiente compromete não apenas a formação académica das crianças, mas também a preparação de futuros líderes comunitários e religiosos.
Até ao momento, as autoridades governamentais e o sector da educação ainda não reagiram publicamente às declarações do líder religioso, num país que a educação é um direito fundamental e um pilar do desenvolvimento do país.






