Pelo menos 27 indivíduos considerados falsos curandeiros foram expulsos, no presente ano, da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (AMETRAMO), na província do Niassa, por alegadamente exercerem actividades de medicina tradicional sem reunir os requisitos exigidos pela organização. A medida surge no âmbito das acções de fiscalização e organização da actividade de medicina tradicional que o órgão tem vindo a realizar para esclarecer algumas denúncias dos cidadãos que reclamam das cobranças ilícitas, conflitos familiares sobre feitiçaria criando desconfiança das comunidades numa altura em que crescem as preocupações de indivíduos que se apresentam como curandeiros, explorando a vulnerabilidade de cidadãos que procuram respostas para problemas de saúde.
O presidente da AMETRAMO no Niassa, Sanúdia Chaibo, revelou que, apesar das lideranças tradicionais desempenharem um papel importante na organização da vida comunitária, existe uma realidade preocupante em que indivíduos, segundo a associação, se apresentam como curandeiros e membros da agremiação, sem, contudo, possuírem legitimidade para tal.
“Desde o início do ano, já expulsámos 27 falsos curandeiros. Alguns aparecem perante a população que tem a esperança de encontrar uma cura e se apresenta como se fossem membros da AMETRAMO, enquanto não tem competências, nem estão devidamente enquadrados ou reúnem as condições exigidas”, afirmou Chaibo considerando que estes tiram a credibilidade da agremiação e fragilizam a confiança conquistada junto as comunidades.
Chaibo explica que a doença quando bate à porta de uma família, não pede licença. Entra acompanhada de medo, desespero e, muitas vezes, de esperança. É precisamente nesse momento de vulnerabilidade em que falsos praticantes encontram espaço para actuar, colocando em risco a saúde e a própria vida dos cidadãos, sobretudo quando estes abandonam tratamentos adequados para seguir promessas de cura sem fundamentação.
Aliás o presidente da AMETRAMO denuncia ainda que alguns dos indivíduos actuam clandestinamente, cobrando valores elevados antes de iniciarem qualquer suposto tratamento e prometendo curar doenças consideradas incuráveis. “Há pessoas que exigem muito dinheiro aos cidadãos antes de os atender e prometem curar doenças que a própria medicina considera difíceis ou incuráveis. Isso preocupa-nos porque muitas famílias acabam por perder dinheiro e, pior ainda, podem perder tempo precioso para procurar assistência adequada”, explicou o dirigente tendo acrescentado que o problema torna-se ainda mais grave quando a vulnerabilidade das famílias é explorada através de acusações relacionadas com feitiçaria.
O dirigente alerta, no entanto, que determinadas práticas e acusações podem transformar problemas de saúde em conflitos familiares, podendo culminar em violência contra pessoas acusadas injustamente de práticas de feitiçaria. Neste contexto, a AMETRAMO defende maior vigilância e responsabilização dos indivíduos que exercem actividades de medicina tradicional, de modo a distinguir os praticantes reconhecidos daqueles que, segundo a organização, usam a designação de curandeiro para praticar burlas ou outras actividades ilícitas.
“A população deve estar atenta. Antes de entregar dinheiro ou confiar a sua saúde a alguém, deve procurar saber se essa pessoa está devidamente reconhecida pelas estruturas competentes”, apelou Chaibo uma vez que para a AMETRAMO, a existência de falsos praticantes acaba por manchar a imagem daqueles que exercem a medicina tradicional de acordo com as regras estabelecidas pela associação.
A AMETRAMO defende maior fiscalização e responsabilização dos indivíduos que exercem a medicina tradicional, de modo a separar os praticantes reconhecidos daqueles que, segundo a associação, usam o nome da profissão para obter ganhos ilícitos. “A população deve estar atenta. Antes de entregar dinheiro ou confiar a sua saúde a alguém, deve procurar saber se essa pessoa está devidamente reconhecida pelas estruturas competentes”, diz Chaibo.
AMETRAMO denuncia interferência do Régulo Chiuaula
Enquanto procura combater aquilo que considera ser uma ameaça à credibilidade da medicina tradicional, a AMETRAMO no Niassa enfrenta outro problema, a alegada interferência do Régulo Chiuaula no funcionamento das actividades dos seus membros, na sua área de jurisdição.
De acordo com Sanúdia Chaibo, a situação já ultrapassou simples desentendimentos locais e está a criar constrangimentos aos praticantes de medicina tradicional, que alegadamente têm visto algumas das suas actividades limitadas por decisões da liderança comunitária. “Nós estamos a enfrentar dificuldades porque há interferências que acabam por impedir o normal funcionamento das actividades dos nossos membros. É preciso esclarecer até onde vai a autoridade de cada estrutura”, afirmou.
O dirigente da associação questiona a legitimidade de determinadas intervenções atribuídas ao Régulo Chiuaula e considera preocupante que uma estrutura de liderança comunitária possa, segundo as acusações, interferir no funcionamento de um sector que possui as suas próprias organizações e mecanismos de enquadramento e exige, por isso, esclarecimentos sobre a situação.
Para a associação, não se pode permitir que conflitos de autoridade ou disputas locais acabem por bloquear actividades que são desenvolvidas por cidadãos e que têm impacto directo nas comunidades e apela à intervenção das autoridades competentes para encontrar uma solução que permita aos praticantes exercer as suas actividades dentro dos limites estabelecidos.
O ISOCNews contactou o Régulo Chiuaula para ouvir a sua versão em torno das declarações da AMETRAMO, mas não obteve sucesso pelo que esperamos publicar o contraditório nas próximas edições numa altura em que a AMETRAMO garante que vai continuar a identificar e denunciar indivíduos que actuem como falsos médicos tradicionais, bem como colaborar com as autoridades para travar práticas que possam lesar cidadãos.





