A Estrada Nacional Número Um (EN1), considerada a espinha dorsal que liga o país de sul a norte, apresenta um estado avançado de degradação no troço do Zimpeto, concretamente nas zonas de Mafureira, cruzamento de Matendene e Coqueiro, na cidade de Maputo. Buracos de grande dimensão, poças de água persistentes e o escoamento contínuo de águas provenientes do bairro Magoanine “B”, vulgarmente conhecido por Matendene, transformaram a via num verdadeiro desafio para automobilistas e passageiros, mesmo em dias sem chuva.
No terreno, a situação é visível: a água, sem um sistema eficaz de drenagem, abre caminhos improvisados, destrói ruas adjacentes e desagua directamente na EN1, contribuindo para o desgaste acelerado do asfalto.
Utentes relatam prejuízos e dificuldades
Elias, transportador semi-colectivo que circula regularmente por aquele troço, descreve dificuldades sobretudo durante o meio de semana, quando o tráfego é intenso. Embora ainda não tenha registado danos na sua viatura, reconhece que os buracos e a água constante dificultam a transitabilidade. “As autoridades colocam pedras, mas pouco tempo depois desaparecem por causa da água que não para de escorrer”, explicou.
A insatisfação é partilhada por outros utentes. José Carlos, automobilista, considera a situação “drástica” e incompatível com um país em via de desenvolvimento. Segundo a fonte, o estado da via compromete não só a mobilidade, mas também a economia, ao dificultar o escoamento de produtos e aumentar os custos de manutenção das viaturas. “Há buracos maiores que as rodas dos carros. Isto destrói viaturas ligeiras e prejudica o cidadão, que acaba por gastar mais na reparação do que a contribuir para a economia”, lamentou, defendendo uma intervenção profunda e soluções alternativas para reduzir a sobrecarga da EN1.
Também Elisa, outra automobilista, relata prejuízos causados pelos buracos, afirmando já conhecer de memória os pontos críticos da estrada. “Já meti o carro num buraco grande sem perceber e estraguei a viatura. Carro não aguenta água, nem mesmo pessoa aguenta”, disse Elisa.
Para Laura, moradora da zona, as chuvas dos últimos anos agravaram significativamente a situação. Como passageira, sente os efeitos do congestionamento diário, causado pelos desvios constantes que os motoristas fazem para evitar os buracos. “A degradação começou em 2024 e só tem vindo a piorar”.
Entre as possíveis causas apontadas, Milton, passageiro frequente, destaca a construção desordenada de armazéns e lojas nas bermas da estrada, que terão bloqueado os canais naturais de escoamento da água. A ausência de valas de drenagem agrava o problema, resultando em inundações frequentes, sobretudo na zona da paragem Bombas. “Se fossem construídas valas para levar a água até ao Mulahuze, onde há machambas, o problema podia ser minimizado e o congestionamento reduzido”.
Especialistas explicam e propõem soluções
Especialistas ouvidos pela nossa equipa de reportagem reforçam que a situação resulta de uma combinação de factores técnicos e urbanísticos.
O engenheiro civil João Cumbe explica que as novas construções ao longo da paragem Bombas até Mulumbela foram erguidas em cotas mais elevadas que a estrada, eliminando antigos caminhos naturais da água. Com isso, o escoamento ficou comprometido, criando zonas de acumulação que originaram fissuras e, posteriormente, buracos na via. O especialista identifica ainda dois principais pontos de congestionamento: o das Bombas, causado pela degradação do alcatrão, e o de Coqueiro, influenciado pelo intenso movimento de viaturas que entram e saem de centros comerciais próximos. Como solução, aponta a necessidade de devolver o curso natural da água, com sistemas de drenagem em depressão que encaminhem o fluxo até à baixa de Mulahuze, e o descongestionamento, alertando contudo para a importância da manutenção contínua das valas.
Por sua vez, o arquitecto Edson Ercílio Francisco entende que o problema é multidisciplinar, envolvendo engenharia de estradas, gestão de tráfego e ordenamento do território. Segundo ele, antes da instalação de armazéns, ferragens e lojas ao longo da via, não se registava um tráfego condicionado como o actual. Estes empreendimentos passaram a gerar grande circulação de viaturas, contribuindo para o congestionamento. Defende, por isso, um redesenho do sistema viário que permita entradas e saídas organizadas, sem comprometer o fluxo principal. Francisco também sugere a construção de valas de drenagem, mas alerta que, devido à natureza permeável dos solos naquela zona, há risco de assoreamento, o que pode comprometer o funcionamento dessas infra-estruturas se não houver controlo e manutenção adequados.
Enquanto a situação persiste, cresce o apelo dos utentes por uma intervenção estruturante que devolva dignidade à EN1, uma via estratégica para o desenvolvimento económico e social do país. (Celso Chinai)







