A Aeroportos de Moçambique (AdM) conseguiu inverter o ciclo negativo e regressou aos resultados positivos em 2025, mas uma auditoria independente revela que a recuperação financeira ainda não representa uma garantia de estabilidade. Apesar do lucro superior a 637 milhões de meticais, a empresa continua a carregar desequilíbrios estruturais, incluindo capital próprio negativo, dificuldades de liquidez e dúvidas sobre a sua capacidade de manter as operações sem medidas adicionais de correcção.
O cenário exposto pela auditoria da Deloitte coloca a AdM entre as empresas estratégicas do Estado que continuam a enfrentar desafios profundos de sustentabilidade financeira, num momento em que o Governo procura reduzir a exposição das contas públicas aos riscos associados ao Sector Empresarial do Estado.
A recuperação dos resultados, embora significativa, não conseguiu apagar as marcas de vários anos de dificuldades acumuladas. As contas mostram que a empresa passou de um prejuízo de 1,53 mil milhões de meticais em 2024 para um lucro líquido de 637,04 milhões de meticais no exercício económico de 2025, uma evolução que, numa primeira leitura, poderia indicar uma mudança de trajectória.
Contudo, a análise detalhada dos auditores revela uma realidade mais complexa. O desempenho positivo registado no último exercício não eliminou os desequilíbrios patrimoniais que continuam a limitar a capacidade financeira da empresa responsável pela gestão dos principais aeroportos do país.
O relatório da Deloitte alerta para a existência de “incertezas materiais” relacionadas com a continuidade operacional da Aeroportos de Moçambique. Na prática, esta observação significa que os auditores identificaram factores que podem comprometer a capacidade da empresa continuar a funcionar normalmente caso não sejam tomadas medidas destinadas a fortalecer a sua posição financeira.
A continuidade operacional é um dos princípios fundamentais da contabilidade empresarial e pressupõe que uma organização possui condições para manter as suas actividades no futuro previsível.
Quando esse pressuposto é questionado, os auditores não afirmam necessariamente que uma empresa esteja em falência, mas sinalizam riscos que exigem intervenção.
Até 31 de Dezembro de 2025, a AdM apresentava um capital próprio negativo estimado em cerca de 857 milhões de meticais. Este indicador revela que as obrigações acumuladas da empresa superavam os recursos próprios disponíveis, reduzindo a capacidade de absorver novos choques financeiros ou realizar investimentos sem recorrer a fontes externas.
Para além do problema patrimonial, a auditoria identificou igualmente um desequilíbrio entre os activos e os passivos de curto prazo. Os compromissos financeiros que venciam no período eram superiores aos recursos disponíveis para os cobrir, uma situação que representa pressão sobre a tesouraria da empresa.
Na avaliação de especialistas, uma empresa pode apresentar lucros num determinado exercício e, simultaneamente, enfrentar dificuldades financeiras estruturais. Isto acontece porque o lucro contabilístico reflecte o resultado de um período específico, enquanto a sustentabilidade depende da capacidade permanente de gerar receitas suficientes para cumprir compromissos e financiar o crescimento.
A auditoria chama ainda atenção para uma operação de aumento do capital social através da incorporação de créditos do Estado avaliados em aproximadamente 1,299 mil milhões de meticais. Entretanto, os auditores indicaram não ter obtido documentação suficiente que comprovasse a deliberação formal da Assembleia Geral de Accionistas sobre a operação.
A ausência desses elementos documentais não significa automaticamente que o procedimento tenha sido irregular. No entanto, representa uma limitação no processo de verificação das demonstrações financeiras e levanta questões sobre a necessidade de reforçar os mecanismos de governação corporativa dentro das empresas públicas.
Empresas públicas continuam a pressionar o Orçamento do Estado
A situação da AdM surge num contexto mais amplo de fragilidades que afectam várias empresas participadas pelo Estado. Nos últimos anos, entidades como a Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), a PETROMOC e a Tmcel enfrentaram dificuldades financeiras, obrigando o Governo a adoptar medidas de apoio, reestruturação ou reorganização.
O Relatório de Riscos Fiscais do Ministério da Economia e Finanças tem alertado que as empresas públicas representam uma fonte potencial de pressão sobre o Orçamento do Estado, sobretudo quando acumulam dívidas, apresentam baixa capacidade operacional ou dependem de intervenções financeiras públicas.
Dados oficiais indicam que, em 2022, as empresas públicas representavam cerca de 73 por cento dos passivos contingentes do Sector Empresarial do Estado. Entre as entidades com maiores níveis de pagamentos em atraso encontravam-se a Tmcel e a própria Aeroportos de Moçambique.
Estes dados demonstram que os desafios financeiros da AdM não começaram com as contas de 2025. A empresa chega ao actual momento carregando efeitos de anos marcados por limitações de receitas, custos elevados de operação, investimentos insuficientes e impactos provocados pela redução do tráfego aéreo durante a pandemia da Covid-19.
A recuperação gradual da aviação civil permitiu uma melhoria das receitas operacionais, impulsionada pelo aumento progressivo dos movimentos de passageiros e aeronaves. Porém, a retoma do sector não foi suficiente para resolver todos os problemas acumulados na estrutura financeira da empresa.
“O retorno aos lucros é um sinal positivo, mas não pode ser confundido com uma recuperação completa. Uma empresa torna-se sustentável quando consegue gerar recursos próprios suficientes para financiar a sua actividade, cumprir obrigações e investir no futuro”, explica o analista económico Augusto Macondjo, ouvido pelo Isocnews.
Segundo o especialista, o caso da AdM reflecte uma realidade mais abrangente das empresas públicas moçambicanas, onde os resultados financeiros de curto prazo nem sempre correspondem à saúde económica efectiva das instituições.
“Durante muitos anos, algumas empresas públicas funcionaram com modelos de gestão pouco eficientes, dependência excessiva do Estado e dificuldades na criação de mecanismos próprios de sustentabilidade. A melhoria de um exercício financeiro é importante, mas não resolve automaticamente problemas estruturais”, afirma Macondjo.
Para o analista, a principal questão colocada pela auditoria está relacionada com a capacidade da empresa transformar a recuperação contabilística numa trajectória permanente de crescimento. “O desafio passa por melhorar a eficiência operacional, controlar custos, aumentar receitas e garantir uma governação mais rigorosa”, defende.
Governo quer recuperar a importância das empresas
A preocupação ganha maior dimensão pelo papel estratégico desempenhado pela Aeroportos de Moçambique. A empresa não gere apenas infra-estruturas comerciais, mas administra plataformas essenciais para a mobilidade nacional, circulação internacional, turismo, comércio e atracção de investimento.
Num país com grandes desafios de ligação territorial, os aeroportos representam uma componente fundamental da integração económica. A sua eficiência influencia directamente a capacidade de Moçambique participar nas cadeias regionais e internacionais de transporte.
A importância da AdM aumenta igualmente devido às perspectivas associadas aos grandes projectos económicos, incluindo a expansão do sector energético, crescimento do turismo e aumento esperado do transporte de carga.
O Governo tem defendido reformas destinadas a tornar as empresas públicas mais eficientes, reduzir desperdícios e diminuir a dependência do Orçamento do Estado. Contudo, especialistas consideram que a implementação dessas medidas continua a enfrentar desafios relacionados com governação, transparência e disciplina financeira.
“O Estado precisa de encontrar um equilíbrio entre proteger activos estratégicos e garantir que essas instituições funcionem com regras empresariais claras”, observa Augusto Macondjo.
Na sua análise, a sustentabilidade das empresas públicas dependerá menos de intervenções pontuais e mais de mudanças profundas nos modelos de gestão. “A capitalização pode resolver uma emergência, mas não substitui reformas estruturais”, acrescenta.
A experiência internacional mostra que países com forte presença do Estado na economia enfrentam desafios semelhantes. Instituições financeiras multilaterais defendem que empresas públicas devem operar com maior autonomia, transparência e capacidade de gerar receitas próprias.
O desafio imediato será garantir que o lucro alcançado em 2025 não seja apenas um resultado isolado, mas o início de uma recuperação consistente baseada em maior eficiência, melhor gestão financeira e capacidade de investimento.





