O antigo Presidente da CTA, Mário Ussene, considera que o país continua distante dos resultados desejados em matéria de desenvolvimento económico e fortalecimento empresarial, apesar dos avanços alcançados ao longo de quase três décadas de diálogo entre o Governo e o sector privado.
O empresário entende que os mecanismos de concertação criados desde os anos 90 foram desenvolvidos para aproximar as partes, mas defende que os impactos práticos fiquem abaixo das expectativas dos operadores económicos nacionais.
Falando à isocnews na quarta-feira, 27 de Maio, Mário Ussene afirmou que o Governo e o sector privado permitiram a construção de pontes importantes, mas nada foi consubstanciado durante ao longo desse período que experimentaram registar mudanças estruturais capazes de alterar a economia nacional.
Segundo Ussene, nos últimos anos foram progressos avançados em áreas como legislação económica, simplificação de alguns processos administrativos e abertura institucional para consultas com o empresariado, embora considere que esses progressos são ainda insuficientes para responder aos principais desafios enfrentados pelas empresas moçambicanas.
“Hoje existe mais espaço para ouvir o sector privado do que existia há 20 ou 30 anos, mas o problema central continua a ser a implementação efectiva das decisões tomadas nos fóruns de diálogo económico” , declarou Ussene, sublinhando que muitos compromissos acabam por não sair do papel.
Para o empresário, um dos principais obstáculos ao crescimento económico sustentável continua a ser uma participação reduzida do sector privado nacional nos grandes projectos de exploração de recursos naturais, sobretudo nas áreas de gás, mineração e energia.
“O país possui recursos naturais estratégicos capazes de transformar a economia nacional, mas essa transformação só será possível se as empresas moçambicanas participarem ativamente da cadeia de valor desses investimentos” , afirmou.
Mário Ussene entende que a economia moçambicana continua dependente de operadores estrangeiros, situação que, segundo explica, limita o impacto dos megaprojectos na criação de riqueza interna e na dinamização das pequenas e médias empresas nacionais.
“Não basta termos grandes investimentos no território nacional. É preciso garantir que esses investimentos criem oportunidades reais para empresários moçambicanos, desde o fornecimento de bens e serviços até à transferência de conhecimento técnico” , acrescentou.
Segundo o antigo presidente da CTA, muitos empresários nacionais continuam sem capacidade financeira para competir em igualdade de situação com empresas internacionais, sobretudo devido às dificuldades de acesso ao crédito e às elevadas taxas de juro praticadas no sistema bancário nacional.
“O financiamento continua a ser um dos maiores problemas do empresariado moçambicano. Temos empresas com potencial, mas sem capacidade financeira para crescer ou responder às exigências dos grandes projectos”, lamentou.
Ussene considera igualmente preocupante o elevado custo operacional das empresas nacionais, apontando despesas com energia, combustíveis, transporte e logística como alguns dos factores que contribuem para a competitividade do sector privado moçambicano.
“Produzir em Moçambique continua caro. Transportar mercadorias continua caro. Fazer negócios continua burocrático. Tudo isso acaba por reduzir a competitividade das nossas empresas” , afirmou o empresário durante a sua intervenção.
Para Mário Ussene, a transformação económica do país depende de uma estratégia clara de industrialização orientada para a valorização dos recursos nacionais e para o fortalecimento da produção interna.
“O grande desafio de Moçambique é deixar de ser apenas exportador de matéria-prima e passar a produzir bens transformados com valor acrescentado” , defendeu.
Na visão do antigo dirigente empresarial, a exportação de recursos em estado bruto impede o país de maximizar receitas, gerar investimentos e desenvolver uma base industrial sólida capaz de sustentar o crescimento econômico a longo prazo.
“Enquanto continuarmos a exportar recursos sem transformação local, estaremos a exportar também oportunidades de emprego, tecnologia e crescimento económico” , sublinhou.
O empresário defende ainda uma aposta mais consistente na formação técnico-profissional, argumentando que muitas empresas enfrentam dificuldades para encontrar mão de obra especializada capaz de responder às exigências atuais do mercado.
“Temos jovens com vontade de trabalhar, mas muitas vezes sem formação adequada às necessidades das empresas. Precisamos aproximar o sistema de ensino da realidade económica do país” , declarou.
Segundo Mário Ussene, o desenvolvimento do setor privado exige igualmente maior previsibilidade fiscal e estabilidade jurídica, fatores considerados fundamentais para impulsionar investimentos e estimular a expansão empresarial.
“O investidor, seja nacional ou estrangeiro, precisa de confiança, estabilidade e regras claras. Sem isso, torna-se difícil planejar investimentos de longo prazo” , explicou.
O antigo presidente da CTA entende também que o país deve acelerar reformas administrativas para reduzir a burocracia e simplificar processos relacionados com licenciamento, tributação e funcionamento das empresas.
“Muitas empresas perdem tempo demais com procedimentos administrativos que poderiam ser mais simples e mais rápidos. Isso afeta a produtividade e desmotiva o investimento” , afirmou.
Ussene admite que o país enfrenta desafios económicos complexos, agravados por crises internacionais, instabilidade regional e eventos climáticos extremos, mas considera que Moçambique possui potencial suficiente para alcançar um crescimento mais inclusivo.
“Temos recursos naturais, temos posição geográfica estratégica e temos uma população jovem. O que precisamos é transformar essas vantagens em oportunidades concretas de desenvolvimento”, destacou.
Para o empresário, o crescimento económico só fará sentido se tiver impacto directo na vida dos cidadãos, sobretudo através da criação de emprego e da redução dos níveis de pobreza.
“O verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pelos números do crescimento económico. Mede-se pela capacidade de melhorar a vida das pessoas” , declarou.
Mário Ussene entende que as pequenas e médias empresas devem ocupar um papel central nas políticas económicas nacionais, considerando que esse segmento representa uma das principais fontes de emprego no país.
“As pequenas empresas precisam de mais apoio, mais financiamento e mais oportunidades de participação nos grandes investimentos. Sem elas, não haverá crescimento inclusivo” , sustentou.
O antigo líder da CTA considera igualmente importante o reforço dos mecanismos de transparência e o cumprimento dos acordos estabelecidos entre o Governo e o sector privado, para garantir que as decisões tomadas produzam resultados concretos.
“Já acumulamos experiência suficiente em diálogo económico. Agora precisamos de passar da fase das intenções para a fase da melhoria efectiva” , afirmou.
Segundo explicado, muitos empresários nacionais continuam frustrados com a lentidão na execução de medidas aprovadas em diferentes fóruns de concertação económica realizados ao longo dos últimos anos.
“Existe uma diferença muito grande entre aquilo que se discute nas conferências e aquilo que realmente acontece no terreno” , explicou.
Ussene entende ainda que a integração económica regional das empresas pode representar uma oportunidade estratégica para as moçambicanas expandirem os mercados e aumentarem a competitividade.
“O mercado regional oferece oportunidades importantes para as empresas nacionais, mas precisamos de preparar melhor o nosso tecido empresarial para competir” , declarou.
Para o empresário, a melhoria das infraestruturas de transporte e logística continua a ser determinante para facilitar o comércio e reduzir custos operacionais no país.
“Sem estradas eficientes, portos funcionais e energia acessíveis, tornam-se muito difícil construir uma economia competitiva” , afirmou.
Mário Ussene concluiu defendendo um compromisso mais firme entre o Estado e o sector privado para acelerar a transformação económica nacional, sublinhando que o país só alcançará um desenvolvimento sustentável quando as empresas moçambicanas participarem de forma efectiva, competitiva e estruturada nos grandes projectos de desenvolvimento económico.








