A Baixa do Infulene, uma das mais importantes zonas de produção de hortícolas da região metropolitana de Maputo, está a enfrentar um problema ambiental que, segundo agricultores locais, se arrasta há vários anos sem solução visível ou uma intervenção pública que consiga travar os prejuízos acumulados por centenas de produtores.
No centro das reclamações está a empresa de reciclagem de resíduos Maxver, instalada nas proximidades das machambas e apontada pelos agricultores como a origem de descargas de águas residuais que se espalham por áreas de cultivo e comprometem o desenvolvimento de diversas culturas agrícolas.
A denúncia não é nova. O que parece novo é o nível de desgaste demonstrado pelos produtores, que afirmam já ter esgotado praticamente todas as vias de diálogo sem que o problema tenha conhecido qualquer evolução significativa.
Durante uma visita ao local, a equipa de reportagem do ISOCNews encontrou parcelas agrícolas marcadas pela presença de águas escuras que atravessam zonas de cultivo e permanecem acumuladas em diferentes pontos da baixa.
Em algumas áreas, os agricultores apontam para culturas debilitadas e solos permanentemente encharcados, situação que, segundo dizem, reduz a produtividade e aumenta o risco de perda das colheitas.
A Baixa do Infulene desempenha um papel estratégico no abastecimento de hortícolas para Maputo e Matola, razão pela qual qualquer perturbação prolongada da actividade agrícola tem impacto que ultrapassa os limites da própria comunidade.
Apesar disso, os produtores afirmam que as suas preocupações continuam sem resposta efectiva. A questão levanta dúvidas sobre a eficácia dos mecanismos de fiscalização ambiental e sobre a capacidade das instituições responsáveis de actuar preventivamente perante denúncias recorrentes.
Também coloca em evidência um debate mais amplo sobre a coexistência entre actividades industriais e produção agrícola em zonas de elevada sensibilidade ambiental.
Os agricultores afirmam que nunca se opuseram à presença da empresa na região. O que contestam é a alegada falta de medidas para impedir que as águas provenientes das suas operações atinjam as áreas agrícolas.
“Disseram que iriam resolver a situação”
Esperança Macamo, agricultora da zona, diz que a comunidade tentou resolver a situação através do diálogo antes de recorrer à exposição pública do problema. Segundo relata, várias reuniões foram realizadas com representantes da empresa ao longo dos últimos anos.
“Falámos muitas vezes com os responsáveis. Explicámos os prejuízos que estamos a sofrer e pedimos uma solução simples, mas até hoje continuamos sem resposta”, afirmou.
A agricultora refere que uma das propostas apresentadas pela comunidade consistia na abertura de uma vala de drenagem capaz de encaminhar as águas para o rio Mulahuze. Na visão dos produtores, essa medida poderia reduzir significativamente os impactos registados nas machambas.
Contudo, segundo afirmam, os compromissos assumidos pela empresa nunca chegaram a sair do papel. “Em cada encontro dizem que vão resolver o problema, mas o tempo passa e nada muda”, lamentou.
A frustração é partilhada por outros agricultores que dizem assistir, campanha após campanha, à redução da produtividade das suas parcelas. Muitos afirmam que os custos de produção aumentam todos os anos, enquanto os rendimentos obtidos com as colheitas diminuem.
Para famílias que dependem exclusivamente da agricultura, esta realidade representa uma ameaça directa à sua sobrevivência económica. Constantino Magul, um dos responsáveis da Associação dos Agricultores de Intaka, confirma a existência de vários contactos entre a comunidade e a empresa.
“Mais de cinco vezes fomos falar com eles para pedir a construção da valeta. Em todas as ocasiões disseram que iriam resolver a situação”, afirmou.
Segundo Magul, os agricultores continuam à espera que essas promessas sejam transformadas em acções concretas. O dirigente associativo considera que o problema já deveria ter merecido uma intervenção mais firme por parte das autoridades competentes.
Na sua opinião, a situação ultrapassou, há anos, o âmbito de um simples diferendo entre uma empresa e os agricultores, trata-se, segundo defende, de uma questão ambiental com implicações económicas e sociais relevantes.
O silêncio institucional
Especialistas em gestão ambiental têm alertado para a necessidade de garantir que actividades industriais implementem sistemas adequados de tratamento e drenagem de efluentes, sobretudo quando operam junto de zonas agrícolas ou ecossistemas sensíveis.
Embora não existam, até ao momento, resultados públicos de análises laboratoriais sobre a composição das águas denunciadas pelos agricultores, os produtores defendem que sejam realizados estudos independentes para esclarecer a situação.
O silêncio institucional é apontado por vários produtores como um dos factores que contribuem para o prolongamento do problema, porque para esta classe social, não basta reconhecer a importância da produção agrícola nos discursos oficiais, é necessário garantir condições concretas para que essa produção possa ocorrer em ambiente seguro e sustentável.
A reportagem do ISOCNews procurou obter esclarecimentos junto da empresa Maxver sobre as acusações apresentadas pelos agricultores, incluindo as alegadas descargas de águas residuais e as promessas de construção de uma vala de drenagem.
Até ao fecho desta edição, a empresa não se pronunciou, um silencio que guarda consigo questões por esclarecer relacionadas com a origem das águas, as medidas de mitigação eventualmente adoptadas e os compromissos assumidos coma comunidade.






