Namaacha é reconhecida pelo clima ameno, paisagens naturais e locais turísticos, a vila de Namaacha carrega também uma profunda importância espiritual. Em 1944, foi consagrado o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, considerado o primeiro em toda África, facto que deu à vila repercussão internacional e consolidou-a como destino da maior peregrinação católica de Moçambique, realizada anualmente nos meses de Maio e Outubro.
Até hoje, milhares de fiéis deslocam-se ao local ano após ano, transformando Namaacha num dos maiores centros de devoção religiosa do país. Contudo, apesar dessa relevância espiritual e do fluxo constante de visitantes durante a peregrinação, a vila continua a enfrentar desafios ligados à degradação de infraestruturas, fraco aproveitamento turístico e ausência de investimentos capazes de dinamizar a economia local, e é neste âmbito que visitantes e moradores defendem que o movimento registado durante a peregrinação deveria servir para impulsionar emprego e desenvolvimento sustentável da vila.
Criada durante o período colonial e outrora vista como uma das zonas de referência para turismo doméstico, Namaacha perdeu protagonismo ao longo do tempo, sendo frequentemente ofuscada pelo crescimento económico e estratégico de Ressano Garcia, associado ao comércio transfronteiriço. Hoje, muitos residentes acreditam que a vila permanece à margem das prioridades de desenvolvimento.
Turismo limitado
Embora locais como cascatas, grutas, santuários de animais e paisagens naturais atraiam visitantes, a falta de acessibilidade reduz o potencial turístico. A precariedade das estradas dificulta o transporte para alguns pontos, tornando as deslocações cansativas e afastando oportunidades de negócio.
A visitante Nilza Taíbo, que voltou às cascatas pela segunda vez durante a peregrinação, considera que melhorar o acesso aos locais turísticos poderia aumentar o número de visitantes e impulsionar a economia local. “Existem coisas que devem ser desenvolvidas em Namaacha, nenhum chapa vai até às cascatas por causa das condições péssimas das estradas.”
Para comerciantes locais, o aumento de visitantes durante a peregrinação demonstra o potencial económico da vila, mas revela igualmente uma dependência excessiva de eventos pontuais. A actividade comercial cresce temporariamente, voltando depois à rotina de pouco movimento. Moradora da vila, Adélia Chilengue entende que a reabilitação de edifícios antigos, criação de oportunidades para jovens e recuperação das infraestruturas turísticas poderiam transformar Namaacha num centro mais atractivo durante todo o ano.
Segundo a residente, actualmente o maior fluxo ocorre apenas em ocasiões específicas como a peregrinação e festivais locais, situação que limita o crescimento económico sustentável.
Oportunidade desperdiçada
A feira organizada durante a peregrinação evidencia o potencial comercial existente, reunindo artigos religiosos, gastronomia e produtos diversos procurados pelos visitantes. Movida pelo ambiente festivo, Assimarte Fábia adquiriu lembranças religiosas disponíveis apenas neste período, sinalizando como eventos temporários criam oportunidades de rendimento. “Comprei uma dezena, a um preço simbólico.”
Apesar do dinamismo, alguns visitantes criticam o aumento dos preços de produtos alimentares durante o evento, alegando que a prática pode afastar consumidores. Depois de caminhar desde Liberdade até Namaacha, Coleta Matola relata ter recebido assistência médica após desenvolver lesões nos pés, elogiando o atendimento prestado. Contudo, entende que a especulação de preços reduz o impacto económico positivo para a própria vila, uma vez que muitos visitantes preferem comprar bens fora do distrito antes da viagem.
Residentes defendem que o potencial turístico de Namaacha exige maior aposta na atracção de investidores para desenvolver infraestruturas, recuperar espaços históricos e criar emprego.
Comerciante local, Angelina Ndove considera que a peregrinação demonstra a capacidade da vila em receber pessoas vindas de várias regiões do país, mas acredita que investimentos permanentes tornariam Namaacha mais valorizada. “O governo devia trazer empresários para investirem em Namaacha para que seja um sítio ainda mais apreciável.”
Em opinião publicada no artigo “A pedra de Namaacha (e não só)”, o cronista Me Mabunda sustenta que Namaacha possui relevância económica estratégica para Moçambique, não apenas pela sua posição fronteiriça com a África do Sul e Eswatini, mas também pelo reconhecimento da Água da Namaacha e pelo potencialagrícola associado às terras férteis da região, favoráveis à produção de citrinos e criação de gado.
O autor defende ainda que um dos recursos menos valorizados é a pedra de Namaacha, descrita como resistente, durável e com múltiplas aplicações, mas ainda pouco aproveitada para impulsionar o desenvolvimento local e nacional. Nesse contexto, questiona a reduzida utilização desse recurso em infraestruturas rodoviárias, argumentando que o país poderia explorar melhor as pedras existentes em diferentes províncias para reduzir custos de construção e desenvolver soluções adaptadas à realidade moçambicana.
Enquanto milhares de pessoas continuam a procurar Namaacha pela fé, paisagens e cascatas, moradores questionam se a peregrinação anual continuará apenas como um momento passageiro de movimento ou se poderá tornar-se numa porta para o desenvolvimento sustentável da vila. (Celso Chinai)







