Num país onde o analfabetismo ainda afecta uma parte significativa da população e o desemprego incide sobretudo sobre os jovens, a sobrevivência diária continua a ser um desafio em Moçambique. Grande parte dos cidadãos depende do sector informal, com rendimentos incertos e insuficientes para garantir estabilidade. É neste cenário que os jogos de azar, sobretudo os digitais, ganham espaço como uma alternativa rápida de obtenção de dinheiro.
Os jogos de apostas não são novos no país, mas ganharam outra dimensão com a expansão da internet e o acesso a smartphones. O que antes se limitava a práticas físicas e informais, hoje transformou-se num mercado digital activo, disponível a qualquer hora. Para muitos jovens, apostar deixou de ser entretenimento e passou a ser encarado como uma estratégia de sobrevivência.
Crescimento digital e ilusão de ganhos fáceis
Entre os jogos mais populares destaca-se o “Aviator”, amplamente difundido entre os jovens. O jogo baseia-se na decisão de retirar o dinheiro antes que um avião virtual desapareça, aumentando a expectativa de lucro a cada segundo. No entanto, o risco de perda acompanha esse crescimento, criando ciclos de tentativa e erro que podem levar a perdas sucessivas.
Apesar da popularidade, não existem dados oficiais públicos que indiquem o número exacto de mortes directamente associadas aos jogos de azar no país, ainda assim, há relatos de situações sociais graves, como endividamento, conflitos familiares e colapso financeiro, ligados ao uso excessivo dessas plataformas.
Entre receitas fiscais e impactos sociais
As casas de apostas operam legalmente no país e contribuem com impostos para o Estado. Embora os valores concretos nem sempre sejam divulgados de forma detalhada, este sector representa uma fonte de receita pública que pode apoiar áreas como saúde, educação e infra-estruturas.
Por outro lado, os efeitos negativos são visíveis no quotidiano de muitos jovens. Há casos de pessoas que desviam dinheiro destinado a necessidades básicas, acumulam dívidas e enfrentam tensões familiares devido ao jogo. A promessa de “dinheiro fácil” transforma-se, muitas vezes, em frustração e agravamento das dificuldades económicas.
Relatos de quem já viveu a experiência
Sérgio Madingue conta que, no passado, esteve envolvido em jogos como xindondinha, mas acabou por desistir. Segundo relata, os ganhos eram ocasionais e as perdas frequentes. Ao longo do tempo, percebeu que o dinheiro ganho não compensava o que era perdido, concluindo que o jogo não traz benefícios duradouros.
No bairro da Mafalala, Beto Felisberto diz ter jogado “Aviator” durante cerca de três meses. Afirma que viveu momentos de ganhos e perdas, mas decidiu parar quando começou a perder com maior frequência. Para Beto, cada pessoa tem uma experiência diferente, embora reconheça os riscos envolvidos.
Já Atumane Assumane, de 19 anos, descreve uma experiência breve com o jogo. Conta que começou com uma pequena aposta e obteve lucro inicial, mas acabou por perder tudo ao tentar ganhar mais. Depois disso, decidiu não voltar a jogar. O jovem também refere ter abandonado outros jogos de azar por considerar que não são uma boa alternativa.
Fenómeno exige atenção social
O crescimento das apostas digitais, aliado às dificuldades económicas enfrentadas por muitos jovens, transforma os jogos de azar numa questão social relevante em Moçambique. Sem alternativas sólidas de rendimento e com acesso facilitado às plataformas, o risco de perdas financeiras e frustração aumenta.
Perspectivas sociais e análise do fenómeno
A activista social Victória Chirindza considera que os jogos de aposta dividem opiniões na sociedade. Segundo explica, há quem veja esta prática como algo prejudicial, sobretudo pessoas que já apostaram e perceberam o nível de dependência que pode gerar, enquanto outros observam benefícios económicos ligados ao sector, como os proprietários das casas de apostas, trabalhadores e alguns apostadores que conseguem ganhos ocasionais.
Victória compara os jogos de aposta ao consumo de bebidas alcoólicas ou outras substâncias que, quando não controladas, podem gerar vício. Para ela, o principal problema não está apenas nas plataformas, mas também na falta de auto-controlo dos utilizadores. Defende que os apostadores devem estabelecer limites e interromper a prática quando começam a acumular perdas constantes.
A activista afirma não ser favorável ao encerramento das casas de apostas, argumentando que estas operam legalmente e garantem rendimento para várias famílias. Ainda assim, considera necessário investir em campanhas de sensibilização para incentivar apostas responsáveis, sobretudo entre os jovens, grupo que considera mais vulnerável aos impactos negativos do fenómeno.
Segundo relata, muitas pessoas acabam criando dívidas para continuar a apostar, situação que pode gerar frustração extrema, depressão e até casos de suicídio. Victória observa ainda que os jogos de azar não são os únicos factores associados a este tipo de tragédia, apontando também o desemprego, o consumo de drogas e as dificuldades económicas como elementos que afectam a juventude moçambicana.
Na sua visão, os jogos de azar funcionam como um jogo de probabilidade e incerteza, onde poucas pessoas conseguem obter ganhos consistentes. Para ela, as maiores vantagens recaem sobre as próprias casas de apostas, que lucram com o elevado número de participantes, enquanto muitos apostadores acabam por perder mais do que ganham.
O sociólogo Roque Tembo entende que o fenómeno dos jogos de azar deve ser analisado dentro do contexto económico e social vivido no país. Segundo explica, o país atravessa um processo de transformação marcado por mudanças económicas, culturais e sociais que influenciam directamente o comportamento da juventude.
Roque Tembo considera que muitos jovens vivem sob forte pressão social e económica. Na sua análise, a cultura da ostentação, amplamente difundida pelas redes sociais, contribui para que parte da juventude procure riqueza imediata sem seguir os processos tradicionais de crescimento financeiro, como estudar, trabalhar gradualmente e construir património ao longo do tempo.
De acordo com o sociólogo, muitos jovens entram nos jogos de azar motivados pela ilusão de enriquecer rapidamente. Inicialmente, o jogo parece controlável, mas, com o tempo, alguns apostadores passam a investir todas as suas economias na esperança de recuperar perdas ou alcançar ganhos maiores.
Roque Tembo acrescenta que as redes sociais acabam por reforçar esse comportamento ao exibirem estilos de vida luxuosos que muitos jovens desejam alcançar. Segundo afirma, nem sempre os bens ostentados nas plataformas digitais resultam de apostas, mas acabam criando a percepção de que é possível mudar de vida rapidamente através do jogo.
O sociólogo alerta ainda para os efeitos psicológicos associados ao vício em apostas. Na sua análise, o endividamento, a pressão familiar e o fracasso financeiro podem desencadear ansiedade, depressão e sentimentos suicidários em alguns jovens que acabam vendo nos jogos de azar uma solução para escapar das dificuldades económicas.
Entre a contribuição fiscal e os impactos negativos no quotidiano, o fenómeno continua a expandir-se, levantando a necessidade de maior atenção por parte da sociedade. (Celso Chinai)








