Moçambique é um país com uma população maioritariamente jovem e enfrenta o desafio de garantir oportunidades de educação, formação e emprego para uma população que chega em grande número à idade activa. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a estrutura demográfica do país é marcada por uma elevada proporção de jovens, o que exerce pressão sobre o mercado de trabalho.
A pressão aumenta à medida que novos jovens procuram entrar no mercado de trabalho. Segundo o ministro da Juventude e Desporto, Caifadine Manasse, cerca de 400 mil jovens atingem anualmente a idade activa para o emprego em Moçambique, aumentando a necessidade de criação de oportunidades para esta camada da população.
Ao mesmo tempo que os jovens constituem uma parcela significativa da população, muitos enfrentam dificuldades para encontrar emprego e garantir uma fonte estável de rendimento. Para o presidente do Parlamento Juvenil, David Fardo, a situação é preocupante porque muitos jovens formados continuam sem uma fonte formal ou informal de renda, apesar de carregarem consigo sonhos e planos para o futuro.
Jovens aparecem entre os envolvidos em crimes
Os dados mais recentes do INE sobre Crime e Justiça mostram que, em 2024, foram registados 15.674 indiciados em Moçambique. Deste universo, 16,8% tinham entre 16 e 21 anos, correspondendo a cerca de 2.635 jovens.
Entre os crimes registados predominam os crimes contra o património, que representaram 51,3% dos indiciados em 2024. Seguem-se os crimes contra pessoas, com 20,5%, crimes de perigo comum, com 11,6%, crimes contra o Estado, com 10,7%, crimes contra a ordem e tranquilidade públicas, com 4,3%, e crimes contra a fé pública, com 1,6%.
Um estudo realizado na cidade de Maputo, em 2017, pelos pesquisadores Fernando Niquice, Michele Poletto e Silvia Helena Koller sobre as “Motivações Do Comportamento Infrator E Perspectivas Do Futuro De Jovens Reclusos Da Cidade De Maputo/Moçambique: Uma Visão Bioecológica”, identificou entre as motivações apresentadas pelos jovens, a satisfação de necessidades materiais, o desemprego e o consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas. Os autores observaram que a procura de recursos para satisfazer necessidades básicas de sobrevivência aparecia associada ao comportamento infrator.
Por seu turno, a psicóloga Maria Massingane considera que a falta de ocupação produtiva pode afectar o desenvolvimento psicológico e social dos jovens. Para além do rendimento, explica, o trabalho proporciona estrutura, sentido de responsabilidade, autoestima e sentimento de pertença.
“Quando estas necessidades não são satisfeitas, alguns jovens podem experimentar frustração, desmotivação, baixa autoestima, ansiedade, perda de esperança no futuro e maior vulnerabilidade à influência de grupos com comportamentos de risco”, explica a psicóloga.
Massingane ressalva, entretanto, que o desemprego não determina que um jovem se torne criminoso. Segundo a especialista, a criminalidade resulta da combinação de factores como o contexto familiar, a educação, as condições socioeconómicas, a influência do meio e as oportunidades disponíveis. “O desemprego é um factor de risco, mas não determina, por si só, que um jovem se torne criminoso”, esclarece.
Para reduzir a vulnerabilidade, a psicóloga defende que os jovens tenham acesso à educação, formação profissional, oportunidades de emprego e acompanhamento familiar. As instituições sociais, acrescenta, devem investir em programas de capacitação, orientação psicológica e actividades desportivas e culturais que promovam a inclusão social e económica da juventude.
Quando a falta de perspectivas se cruza com a procura por dinheiro
A experiência de Leonardo Mateus, jovem de 21 anos, mostra como a ausência de ocupação pode cruzar-se com a influência dos pares e a procura de dinheiro. Depois de concluir a 12.ª classe, Leonardo disse que não encontrou espaço para seguir o sonho de ser militar e continuar os estudos universitários.
Leonardo costumava se encontrar com outros jovens, onde as conversas eram acompanhadas, muitas das vezes, pelo consumo de bebidas. “Se tivesse bebidas melhor ainda, e esquecia que tenho que ir para casa ou fazer outras coisas, eu nem procurava trabalho, mas às vezes encontrava um pouco de dinheiro que usava para contribuir para comprar bebidas secas”, relata.
“Quando passei a não conseguir dinheiro para beber ficava muito pensativo e ideias estranhas vinham na minha cabeça, e também como algumas das pessoas que andavam comigo não tinham boa conduta acabei me envolvendo em roubos de telefones, assaltar alunos ao sair da escola”, relata.
O jovem explica que procurava dinheiro não apenas para consumir bebidas, mas também para comprar roupas e satisfazer outras necessidades. A mudança, segundo conta, aconteceu depois da intervenção da mãe e dos tios, que perceberam que o jovem estava a seguir um caminho considerado prejudicial e decidiram o confrontar com um encontro sensibilizador.
Leonardo afirma que as práticas criminosas já lhe tinham trazido problemas com a Polícia. “Já me intimaram com a polícia umas quatro vezes e por duas vezes dormi dois dias na cela por causa de bater e levar pertences de pessoas”, relata.
Actualmente, continua sem emprego formal, mas procura realizar trabalhos ocasionais para garantir algum rendimento e apesar das dificuldades, diz fazer diferentes tipos de trabalho de modo a se organizar para continuar com os estudos.
Inclusão económica como resposta
Para David Fardo, presidente do Parlamento Juvenil, a inclusão económica da juventude deve ser aprofundada. O dirigente considera que muitos jovens possuem formação, mas continuam sem uma fonte de rendimento.
“A inclusão económica não é algo que deve ser tomado de praxe, deve sim se aprofundar porque a juventude moçambicana maioritariamente é uma juventude com um nível de formação, mas infelizmente desempregada”, afirma Fardo no contexto da Cúpula Nacional – Juventude, Paz e Segurança .
Fardo chama ainda atenção para o facto de existirem jovens formados em áreas que poderiam contribuir para sectores estratégicos da economia, mas que continuam confrontados com o desemprego.
A necessidade de criar alternativas também é defendida pelo ministro da Juventude e Desporto, Caifadine Manasse. O governante considera que os jovens devem ser incentivados a produzir e a procurar novas formas de geração de rendimento.
“O que nós temos que fazer é, produzirmos em todas as áreas, jovens que têm a oportunidade de ter terras, fazer agricultura produzir para vender”, defende Manasse. O ministro acrescenta que as novas tecnologias também podem abrir novas possibilidades para a juventude. “Agora com a questão da globalização e tecnologias tem muitas formas de fazer dinheiro e os jovens devem abraçar isso”, afirma.
Manasse lembra que cerca de 400 mil jovens atingem anualmente a idade activa para o emprego e considera que a resposta ao desafio deve envolver a própria juventude. Para o governante, os jovens que conseguem oportunidades devem também criar condições para empregar outros jovens, contribuindo para uma economia mais forte e inclusiva.
Os dados criminais não permitem afirmar que o desemprego seja a causa da criminalidade juvenil. Porém, a investigação realizada em Maputo e os depoimentos recolhidos para esta reportagem mostram que a falta de ocupação, as dificuldades económicas, a procura de dinheiro e a influência do meio podem fazer parte de um conjunto de factores que aumentam a vulnerabilidade de alguns jovens perante o crime. (Tomás Pindela)




