A fortificação alimentar em larga escala é uma estratégia comprovada e custo-efectiva para reduzir as deficiências de micronutrientes e melhorar a saúde pública. Tal como acontece com todos os programas nutricionais bem-sucedidos, o seu impacto depende da disponibilidade de dados oportunos e acionáveis, que cheguem às pessoas certas no momento certo. É por esses pressupostos que a cidade de Maputo acolheu o workshop sobre a definição de prioridades em matéria de dados relativos à fortificação alimentar em Moçambique.
O encontro surge na sequência do diálogo regional africano sobre dados para a acção em fortificação de alimentos, realizado em Addis Abeba, capital da Etiópia, em outubro do ano passado, que reuniu representantes de vários países africanos para refletir sobre um desafio comum: como garantir que os dados sobre a fortificação alimentar sejam recolhidos, partilhados e utilizados de forma eficaz para orientar decisões e melhorar programas.
Falando em entrevista, a coordenadora do Programa Nacional de Fortificação de Alimentos (PNFA), Eduarda Mungoi avançou que Moçambique tem deficiências de nutrientes, nomeadamente: ferro, vitamina A, ácido fólico por isso a importância do programa de fortificação levado a cabo no país.
Entretanto, Mungoi informou que o país apresenta níveis satisfatórios de cumprimento do programa de fortificação alimentar em produtos de grande escala como é o caso do óleo alimentar, o sal e as farinhas de milho e trigo. “Nós estamos neste momento a uns níveis de 60% a 70% daquilo que é o grau de comprimento da fortificação, mas continuamos ainda com desafios”, fez saber a coordenadora.
Por isso mesmo Mungoi refere que a ideia do workshop era mostrar que não basta fortificar, é preciso olhar para os níveis em que a fortificação gera impacto nos níveis das deficiências registadas nos alimentos.
Produção em pequena escala continua a ser o problema
Durante a entrevista, a coordenadora do PNFA disse que neste momento, Moçambique tem uma Large-Scale Food Fortification (LSFF), ou seja, Fortificação Alimentar em Grande escala, se traduzido do inglês para o português, satisfatória em produtos como as farinhas de milho e trigo, sal e óleo alimentar.
Entretanto, o problema reside nas Pequenas e Medias Empresas (PME’s) onde não se observa a componente de fortificação dos alimentos sobretudo na farinha de milho e no sal em que grande parte do que é consumido nas comunidades é produzido pelas PME’s.
“Em termos de Grande Escala, estão a fortificar, na Pequena Escala nós não temos a fortificação. Temos de trabalhar com as os equipamentos das pequenas moageiras micro dosadores para pequenas e médias empresas”, esclareceu a coordenadora sublinhando a necessidade de trabalhar na fiscalização e monitoria junto destes produtores, e acima de tudo, ajudar a classe em termos de sustentabilidade.
Produção total acima de 13 milhões de toneladas métricas
A Secretária de Estado da Industria, Custódia Paunde, considerou que as discussões do workshop devem ajudar o executivo a garantir que as prioridades de dados de fortificação de alimentos em Moçambique se traduzam em compromissos exequíveis, dotados de recursos e sujeitos à monitorização.
Na sequência, Paunde referiu que a produção de alimentos fortificados constitui a espinha dorsal do Programa Nacional de Fortificação de Alimentos, entretanto, os números registados no panorama da produção de alimentos fortificados são animadores.
“Ao longo dos últimos anos, baseado no balanço feito no ano de 2025, constatou-se um alcance significativo na produção e distribuição de alimentos fortificados com micronutrientes essenciais, com uma produção total acima de 13 milhões de toneladas métricas de farinha de milho, farinha de trigo, açúcar, óleo alimentar e sal iodado”, anunciou a dirigente.
Segundo Custódia Paunde, este resultado demonstra a capacidade que a indústria nacional tem para produzir e distribuir alimentos de qualidade, “caminhando gradualmente para uma maior substituição de importações dos cinco veículos de fortificação, portanto obrigatório, garantindo maior controle da qualidade de alimentos consumidos no país”.
Antes de reiterar o compromisso do Governo em apoiar e impulsionar o PNFA em Moçambique, a Secretária de Estado da Industria no Ministério das Finanças considerou importante o uso de sistemas digitais para permitir uma maior articulação com todos os organismos nacionais e regionais e reforçar maior prestação no panorama mundial sobre a prevenção e combate à desnutrição crónica.
“Fortificação é uma intervenção de baixo custo com alto impacto”
Falando na abertura do Workshop, o Especialista Sénior em Nutrição, Unidade de Desenvolvimento Social e Humano na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), Raymond Chikomba disse que a região conta com um mecanismo de coordenação para a fortificação dos alimentos, estabelecido em 2023 para 25 países.
No rol das actividades desenvolvidas na região, Chikomba fala da existência de dados sobre fortificação como sendo o pilar para a implementação de soluções a volta dos problemas que apoquentam as comunidades africanas, resultantes da fraca fortificação alimentar.
“Então, está comprovado que a fortificação é uma intervenção de baixo custo com alto impacto”, disse o também Co-Presidente do Mecanismo de Coordenação Regional da África Oriental e Austral (ESA RCM), Raymond Chikomba. Na sua intervenção, o Especialista Sénior deu o exemplo do sal que sendo-lhe acrescido iodo, gera um impacto significativo na redução de riscos de aborto nas mulheres gravidas, atraso mental, surdez, mudez assim como a deficiência intelectual na criança e outros males nas comunidades.
“E além destas linhas, acreditamos que outras deficiências em micronutrientes também podem ser corrigidas através da introdução de micronutrientes em vários produtos alimentares”, defendeu.
Para isso, os dados obtidos na área de alimentos fortificados devem levar a perceber os reais problemas que a população de um pais enfrenta através da quantificação dos dados recolhidos. Ademais, é importante, na visão de Chikomba, saber quem colecta os dados, onde são armazenados e quem pode usar, de modo a facilitar o governo e parceiros a elaborar medidas de ultrapassar os obstáculos rumo a fortificação alimentar.
Raymond Chikomba felicitou o país pelos resultados alcançados no campo da fortificação de alimentos, que para o Especialista em Nutrição na SADC, “mostra um grande compromisso do governo para garantir que haja disponibilidade de alimentos nutritivos para a população”.
É responsabilidade de todos fortalecer o PNFA
Em representação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Maaike Arts afirmou que é responsabilidade de todos a construção de um sistema de dados robusto que fortaleça o Programa Nacional de Fortificação de Alimentos (PNFA) e contribuir para melhores resultados nutricionais para a população moçambicana.
Por isso Maaike Arts, que chefia a Secção de Saúde e Nutrição no UNICEF, considerou o evento oportuno porque reconhece que a fortificação alimentar continua a ser uma das intervenções de saúde pública mais eficazes com custos reduzidos para prevenir deficiências de micronutrientes, melhorar o estado nutricional da população e contribuir para o desenvolvimento humano e económico do país.
“Hoje, graças à existência de dados, sabemos que uma elevada proporção dos principais alimentos consumidos pela população moçambicana já está fortificada, incluindo o açúcar, o sal, as farinhas de trigo e milho e o óleo alimentar”, disse Arts.
Contudo, a representante do UNICEF afirma que os dados também evidenciam desafios importantes relacionados com a qualidade da fortificação e o cumprimento dos padrões estabelecidos, demonstrando que o acesso aos alimentos fortificados, por si só, não é suficiente para garantir o impacto nutricional desejado.
“A frequência da recolha e análise destes dados, de forma regular e consistente, ainda continua um desafio e não existe um local onde toda a informação relacionada à fortificação de alimentos esteja disponível para informar o programa e/ou para tomar decisões”, acrescentou.
Daí que o UNICEF reforçou um apelo para a observância de dados de qualidade que levam a tomada de decisões acertadas. “São os dados que nos permitem identificar lacunas, compreender os desafios, alocar recursos de forma eficiente e medir o impacto das intervenções que implementamos”, disse.




