O Núncio Apostólico em Moçambique, Dom Luís Miguel Cárdaba, de visita pastoral à Diocese de Lichinga, na província do Niassa. À sua chegada, foi recebido por autoridades governamentais, líderes religiosos e fiéis católicos, tendo aproveitado a ocasião para deixar uma forte mensagem de paz, esperança e reconciliação, num contexto em que Moçambique é marcado, nos últimos tempos, por conflitos armados e desastres naturais.
Durante a homilia da celebração da Santa Missa na Sé Catedral de Lichinga, cerimónia que reuniu centenas de fiéis de três paróquias sedeadas arredores da capital provincial do Niassa, para além de sacerdotes e representantes das autoridades governamentais, Dom Luís Miguel Cárdaba lançou duras críticas que ultrapassaram o simbolismo diplomático e religioso ao afirmar que Moçambique e o mundo vivem uma permanente luta entre o bem e o mal, realidade que, segundo afirmou, tem se reproduzido no seio da Igreja.
O núncio apostólico em Mocambique destacou que a realidade social e espiritual de Moçambique, está marcada por conflitos armados, insegurança, dificuldades económicas e fragilidades institucionais pelo que a oração, à conversão e compromisso de cada cristão deve ser o pilar da construção de uma sociedade mais fraterna e reconciliada frisando que a paz começa no coração de cada pessoa e se fortalece através do perdão, da solidariedade e do diálogo.
O representante do Papa Leão XIV em Moçambique sublinhou ainda que a violência continua a impor-se em muitas sociedades, alimentado pela injustiça, corrupção, inveja e terrorismo, factores que ameaçam permanentemente a convivência pacífica entre os povos. “A violência no nosso mundo fala mais alto. Temos muitas pessoas que sofrem da injustiça, da corrupção, da inveja e do terrorismo. Não devemos permitir que a violência continue a derramar o sangue dos inocentes, nem que nos afogue no pessimismo, na amargura e na desilusão. Hoje devemos declarar: basta”, declarou.
Por outro lado, o representante diplomático da Santa Sé em Moçambique, lamentou o homicídio do bispo de Quelimane Dom Osório Citora, ocorrido na sua residência o que reforça a gravidade da violência que atinge também líderes religiosos. “O bem e o mal crescem no mesmo mundo. A título de exemplo, recentemente em Quelimane assistimos ao assassínio bárbaro do nosso bispo, que teve o seu sangue derramado na sua própria residência”, lamentou.
Intensificar oração para o fortalecimento espiritual
Na sua reflexão, Dom Luís Miguel defendeu que o caminho para uma sociedade mais justa passa por uma profunda transformação espiritual apelando aos cristãos e à sociedade em geral para intensificarem a oração como instrumento de fortalecimento espiritual e de busca da paz, sobretudo perante os conflitos que continuam a afectar várias regiões do mundo e, em particular, a província de Cabo Delgado.
“Agora é o tempo da conversão profunda, da penitência purificadora e da renovação interior para um convívio social entre irmãos os cristãos e a população em geral devem promover a paz, a fé e a reconciliação para resolvermos os nossos problemas” apelou.
Num outro desenvolvimento, o representante diplomático da Santa Sé em Moçambique reconheceu que a Diocese de Lichinga enfrenta diversos desafios pastorais, sobretudo devido às grandes distâncias entre as comunidades e o estado precário das vias de acesso. “Os bispos têm dificuldades em estar próximos das suas comunidades devido ao estado das estradas. Muitas vezes os crentes deixam de rezar porque ficam espiritualmente frios e acabam por se distanciar da Igreja Católica” anotou o diplomata do Vaticano destacando igualmente a insuficiência de sacerdotes para responder às necessidades da evangelização.
Dom Luís Miguel Cárdaba aproveitou ainda a ocasião para dirigir uma mensagem aos jovens que sentem vocação para a vida religiosa, advertindo que o sacerdócio e a vida consagrada não devem ser encarados como um meio de obtenção de benefícios materiais. “Se alguém quer ser padre ou noviço pensando que futuramente vai ajudar financeiramente a sua família, está muito enganado. É melhor desistir, porque se continuar vai sofrer muito na sua vida e fará mal à Igreja”, sublinhou acrescentando que a missão religiosa exige entrega, serviço e amor desinteressado.
Apesar das dificuldades que afectam o país e a própria Igreja, o representante do Papa manifestou confiança num futuro melhor. “Embora a nossa Igreja e o nosso país, em alguns momentos, cresçam tanto no mal como no bem, esperamos que a sociedade seja melhor” concluiu.
Governo do Niassa satisfeito com a visita
Na ocasião, o Secretário de Estado na Província do Niassa, Silva Livone, manifestou satisfação pela visita do representante da Santa Sé, considerando que a sua presença poderá fortalecer a paz e a estabilidade social na província. “Nós, como Governo, consideramos que esta visita vai mudar alguma coisa na nossa província para a consolidação da nossa população” enfatizou.
Em relação ao homicídio do Bispo de Quelimane, Silva Livone afirmou confiar nas instituições de justiça. “O Núncio destacou aqui a morte do bispo de Quelimane e acreditamos que os órgãos da justiça farão o seu trabalho, respeitando a separação de poderes, para o esclarecimento do caso”, disse o governante e apelou para que, durante a sua permanência no Niassa, Dom Luís Miguel Cárdaba continue a transmitir mensagens de paz e unidade nacional.
“Vamos pedir que, durante a sua visita de trabalho às comunidades, continue a transmitir mensagens de paz, fraternidade e unidade nacional. Recentemente assistimos à circulação de boatos que desestabilizaram algumas comunidades e acreditamos que a verdade também reside na religião. Estamos confiantes de que será uma visita muito positiva para a nossa província”, pediu Silva Livone.
Durante os oito dias de estadia na Diocese de Lichinga, Dom Luís Miguel Cárdaba visitará diversas paróquias da província do Niassa, com destaque para o Santuário de Nossa Senhora da Consolata de Massangulo, bem como os distritos de Ngauma, Mandimba, Cuamba, Mecanhelas, Metarica, Maúa, Marrupa, Majune, Sanga e Lago.
A agenda inclui igualmente encontros institucionais com a Governadora da Província do Niassa e com o Secretário de Estado, além de reuniões com sacerdotes, religiosos, catequistas, consagrados e milhares de fiéis da Diocese de Lichinga.
A visita do representante do Papa é vista pela Igreja Católica como uma oportunidade de fortalecer a comunhão entre os cristãos, incentivar as vocações religiosas e renovar a esperança das comunidades, sobretudo num período em que Moçambique continua confrontado com desafios relacionados com a violência, a pobreza e a necessidade de reforçar a cultura de paz e reconciliação.




