O Hospital Psiquiátrico de Infulene mantém actualmente 83 utentes em regime residencial, dos quais 25 mulheres, numa realidade que expõe as dificuldades de reintegração de pessoas que, depois de estabilizadas clinicamente, não encontram condições para regressar ao convívio familiar ou comunitário. A directora da unidade, Serena Chachuaio, explica que a permanência prolongada não decorre apenas de questões relacionadas com a saúde dos internados, mas também da falta de retaguarda familiar e de alternativas sociais para aqueles que recebem alta médica.
A instituição tem como missão assegurar a prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e reinserção dos seus utentes, pelo que a permanência indefinida representa um desafio que ultrapassa a esfera sanitária. “Temos a componente de reintegração, que é devolver este paciente, melhorado, para a sua casa e para a sua comunidade”, afirmou a responsável. A dificuldade surge quando essa casa deixa de existir como espaço de acolhimento ou quando os parentes recusam reassumir responsabilidades sobre quem esteve sob cuidados hospitalares.
O trabalho de reinserção começa ainda durante o internamento, através de técnicos de acção social que procuram reunir elementos sobre a identidade, origem e parentesco dos utentes. Quando existem referências suficientes, a equipa desloca-se às comunidades indicadas e estabelece contacto com estruturas administrativas locais para confirmar os dados.
Nos casos de pessoas provenientes de outras províncias, o processo envolve os serviços sociais das respectivas regiões, responsáveis por verificar as informações e localizar os familiares. “Imaginemos que a localização é Niassa. Nesse caso, temos que entrar em contacto com os técnicos daquela província, passar a informação e eles depois vão ter que validar aquela informação”, explicou Chachuaio.
A tarefa torna-se particularmente complexa quando a própria pessoa não consegue recordar nomes, lugares ou outros elementos necessários para reconstruir a sua história familiar. Os quadros de demência constituem um dos exemplos apontados pela directora, devido às alterações de memória que dificultam a identificação das pessoas próximas. Há ainda situações em que os dados apresentados pelos acompanhantes não correspondem à realidade, obrigando os técnicos a desenvolver novas diligências antes de concluir o processo.
Quando o regresso é recusado
Encontrar parentes também não significa necessariamente garantir o retorno do utente. Segundo Serena Chachuaio, existem casos em que os familiares são localizados, mas recusam receber novamente a pessoa. “Eu não aceito receber o meu familiar de volta. A casa dele vai ser aqui para sempre”, relatou a directora, reproduzindo uma declaração feita por um familiar.
Nessas circunstâncias, a unidade sanitária fica sem margem para proceder à saída, sobretudo quando não existe outro espaço capaz de assegurar cuidados básicos e acompanhamento. “Nós, como instituição, não temos como tirar o paciente daqui”, esclareceu.
A responsável entende que a solução deve envolver o sector da Acção Social, uma vez que a unidade hospitalar não dispõe de estruturas apropriadas para acolhimento permanente. “Aqui ele só tem uma cama e tem uma copa para a refeição. Não tem as outras condições necessárias para uma permanência prolongada”, explicou.
A insuficiência de vagas nas instituições sociais surge como outro obstáculo, limitando o encaminhamento de pessoas que já apresentam condições clínicas para deixar o ambiente hospitalar.
Décadas dentro da unidade
A dimensão do problema pode ser observada nos casos de utentes que permanecem no estabelecimento há 40, 50 e quase 60 anos, transformando um espaço concebido para cuidados especializados numa residência de longa duração.
A directora revelou que a instituição já começou a preparar procedimentos relacionados com o falecimento de alguns destes cidadãos, devido à idade avançada e ao prolongado período passado nas instalações. “Nós agora já começámos a organizar. Há pacientes que vivem aqui há 40, 50 e quase 60 anos e já estamos a organizar os funerais destes pacientes”, revelou.
Também existem pessoas com cerca de dez anos de permanência, apesar de apresentarem melhorias significativas no seu estado clínico. A situação evidencia uma separação entre a recuperação médica e a capacidade de acolhimento existente fora das instalações sanitárias.
Segundo Chachuaio, já foi possível encaminhar alguns utentes para instituições de apoio, mas o número continua reduzido devido à escassez de lugares disponíveis. “Já tivemos alguns casos em que conseguimos encontrar instituições, principalmente dois, três ou, no máximo, quatro pacientes, mas depois não tivemos mais possibilidades”, disse.
Uma resposta que ultrapassa a saúde
O Hospital Psiquiátrico possui capacidade instalada para 360 camas e, actualmente, cerca de 245 encontram-se ocupadas, incluindo pessoas cuja recuperação já permitiria considerar alternativas fora do internamento.
A unidade é a maior das três especializadas em psiquiatria existentes no país, ao lado das instalações localizadas em Nampula e Chimoio. Por ser um estabelecimento de nível terciário, recebe cidadãos provenientes de diferentes regiões, tornando a articulação com os serviços provinciais essencial para assegurar o retorno às comunidades de origem.
A direcção considera que o problema não pode ser resolvido apenas através da expansão dos serviços médicos, uma vez que muitos casos exigem soluções de natureza social. “Esses pacientes estão melhorados, mas não têm para onde ir”, resumiu Serena Chachuaio.
A situação coloca pressão sobre uma estrutura cuja finalidade principal é tratar, recuperar e preparar os utentes para uma vida fora do ambiente hospitalar. Sem residências assistidas, vagas suficientes e acompanhamento comunitário, pessoas clinicamente estabilizadas continuam dependentes de uma instituição que não foi concebida para substituir a família ou uma estrutura social.
O cenário exige uma resposta articulada entre Saúde, Acção Social, autoridades locais e familiares, de modo a criar alternativas seguras para quem não dispõe de retaguarda. Mais do que uma questão de abandono, os casos revelados pela direcção expõem uma lacuna na rede de protecção social destinada a adultos com perturbações mentais que perderam o apoio dos seus parentes.
A criação de espaços de acolhimento, programas comunitários e mecanismos de acompanhamento poderia reduzir a pressão sobre o estabelecimento e permitir que os utentes recuperados tenham uma vida mais próxima da comunidade.
O desafio passa por garantir que a alta médica não represente o início de uma nova forma de exclusão, sobretudo para aqueles que não possuem alguém disposto a recebê-los. Enquanto não forem criadas respostas adequadas, cidadãos que já recuperaram poderão continuar confinados a um ambiente hospitalar durante períodos que ultrapassam largamente o necessário para o tratamento.
A realidade descrita por Serena Chachuaio apela, por isso, a uma intervenção conjunta das entidades públicas, das famílias e da sociedade, para que nenhum cidadão permaneça durante décadas num hospital simplesmente por não existir uma alternativa digna de acolhimento.






