Por Celso Chinai
O crescente fluxo de jovens africanos, sobretudo moçambicanos, a rumar para a Europa tem sido impulsionado por factores económicos e sociais que tornam Portugal uma das principais portas de entrada. Um relatório recente alerta que Portugal depende cada vez mais de trabalhadores estrangeiros devido ao envelhecimento da sua população o que gera carência de mão-de-obra em sectores como construção civil, hotelaria e restauração. Esta realidade tem atraído milhares de africanos que veem no país europeu uma oportunidade de emprego rápido e melhores condições de vida, antes mesmo de avançarem para outras regiões da Europa.
Em Moçambique, o desemprego, os baixos salários, a falta de perspectivas e a busca por estabilidade social figuram entre os principais motivos que empurram a juventude para a emigração voluntária. O fenómeno levanta debates sobre o sentido patriótico e o compromisso com o desenvolvimento do país com uma mão-de-obra qualificada em constante abandono para o exterior.
“Em Moçambique levaria dez anos”

Alcídio Tembe, cidadão moçambicano do bairro Djonasse, em Maputo, encontra-se actualmente em Portugal, onde trabalha na Ilha da Madeira. Em entrevista, explicou que a sua ida a Europa não teve como objectivo construir definitivamente a sua vida naquele continente, mas sim arrecadar fundos para posteriormente investir em Moçambique.
Tembe contou que encontrou em Portugal oportunidades mais rápidas do que teria no país e, segundo conta, em pouco tempo conseguiu realizar objectivos que, em Moçambique, levariam cerca de dez anos para concretizar. Acrescentou que não demorou para conseguir emprego, devido à falta de mão-de-obra em áreas como construção civil e hotelaria.
O jovem explicou ainda que saiu de Moçambique já com uma base de contactos e sabia exactamente para onde iria. Revelou que começou a trabalhar num restaurante em Lisboa durante seis meses, antes de se transferir para a Madeira, atraído por salários mais elevados nas obras de construção civil. Segundo Tembe, a empresa onde trabalha fornece alojamento e transporte, enquanto os gastos com alimentação ficam sob sua responsabilidade.
Ou seja, na visão do nosso entrevistado, a vida na Europa é relativamente mais fácil se comparado com as dinâmicas de Moçambique no quesito oportunidades de emprego, entretanto, apesar de incentivar outros jovens a emigrar, Tembe defende que a ida para a Europa deve servir como forma de obtenção de recursos para posterior investimento em Moçambique.
“Aqui chegas hoje e amanhã estás a trabalhar”

Joaquim Chaluco, do bairro Memo, no distrito de Marracuene, actualmente a residir na cidade do Porto, em Portugal, afirmou que decidiu emigrar para melhorar as condições de vida da sua família e contribuir futuramente para o desenvolvimento do país.
Segundo Chaluco, o desemprego em Moçambique foi um dos principais factores que ditaram a sua saída do país da marrabenta explicando que, ao contrário da realidade moçambicana, em Portugal o acesso ao emprego é mais rápido, sobretudo em sectores ligados à construção civil, chegando a afirmar que “aqui (em Portugal) chegas hoje e amanhã estás a trabalhar”.
O jovem contou que se encontra em Portugal há quase três meses e que, desde então, tem recebido mensagens constantes de moçambicanos interessados em emigrar, incluindo professores, polícias e funcionários do aparelho do Estado.
De acordo com Chaluco, duas pessoas que viajaram consigo para Portugal, um professor e um polícia, abandonaram os seus empregos em Moçambique e actualmente trabalham naquele país europeu. O curiosos é que nem sempre os cidadãos que abandonam as suas profissões em Moçambique desempenham as mesmas funções nas terras lusas, aglomerando-se nas obras de construção civil.
Mulheres enfrentam maiores dificuldades
Durante a entrevista, Joaquim Chaluco alertou para as dificuldades enfrentadas por mulheres africanas ao chegarem à Europa sem preparação prévia. Segundo conta, muitos emigrantes viajam sem informações suficientes sobre o mercado de trabalho europeu, situação que afecta principalmente as mulheres por isso aconselha os interessados em emigrar a proceder com pesquisas previas de oportunidades de emprego e alojamento antes de seguir viagem.
Explicou ainda que os sectores mais procurados actualmente em Portugal são os ligados à construção civil, carpintaria e fábricas de embalagens, áreas que normalmente nao sao concorridos pelas mulheres, um forte empecilho na sua fixação em Portugal.
Na visão de Chaluco, o Governo moçambicano devia criar programas de assistência para facilitar a saída legal de trabalhadores qualificados rumo à Europa, sobretudo em áreas com elevada procura de mão-de-obra. Defendeu igualmente a criação de memorandos entre Moçambique e países europeus para facilitar a integração de trabalhadores moçambicanos nos países do velho continente.
Separação familiar e fuga de quadros
A socióloga Sheila Khan entende que a actual vaga migratória africana e moçambicana para a Europa deve ser analisada não apenas como um fenómeno económico, mas também social e humano. A investigadora, conhecida pelas suas reflexões sobre diáspora africana, mobilidade humana e pós-colonialismo, considera que a emigração revela as desigualdades estruturais existentes nos países africanos e o sentimento de falta de perspectivas entre a juventude.
Segundo a socióloga, o aumento da saída de jovens moçambicanos pode provocar impactos sociais profundos, entre eles a separação de famílias, o afastamento prolongado entre pais e filhos, a perda de quadros qualificados em sectores estratégicos e a dependência crescente das remessas enviadas a partir do exterior.
A socióloga entende ainda que muitos jovens passam a olhar a Europa como única alternativa de ascensão social, fenómeno que enfraquece a confiança nas instituições nacionais e alimenta uma cultura de saída permanente.
Apesar disso, Sheila Khan reconhece que, para muitos emigrantes, deixar Moçambique representa uma estratégia de sobrevivência perante o desemprego, baixos salários e dificuldades económicas enfrentadas no país.
“É fundamental oferecer perspectivas à juventude”
O filósofo moçambicano Severino Ngoenha avançou, através da sua página oficial do Facebook, que o futuro da juventude moçambicana deve ser construído dentro do próprio país, através da criação de oportunidades e políticas inclusivas.
“É fundamental oferecer perspectivas à juventude em Moçambique, para que acreditem em seu potencial aqui. Vamos discutir como políticas inclusivas podem fomentar um futuro brilhante e produtivo, sem precisar emigrar”, afirmou.
Ngoenha entende que Moçambique, sendo um país com uma população maioritariamente jovem, precisa criar bases sólidas para que esta camada social acredite num futuro melhor dentro do território nacional.
Na sua abordagem, o académico defende que a política nacional deve abrir perspectivas reais de crescimento económico, inclusão social e valorização profissional, para evitar que jovens qualificados deixem o país e passem a contribuir para o desenvolvimento de outras nações.





