Utentes do Hospital Provincial de Lichinga e de outras unidades sanitárias da cidade denunciam a persistente escassez de medicamentos básicos nas farmácias públicas como antibióticos, anti-alérgicos e analgésicos, situação que tem obrigado muitos pacientes a recorrerem às farmácias privadas, onde os custos são elevados, dificultando o acesso ao tratamento de diversas doenças, particularmente vulnerável às doenças respiratórias.
A persistência da falta de medicamentos nas farmácias da cidade de Lichinga, voltou a expor as fragilidades do sistema público de saúde, deixando centenas de utentes diante de um dilema angustiante: interromper o tratamento ou recorrer às farmácias privadas, onde os preços permanecem fora do alcance de grande parte da população principalmente que vivem em situação vulneráveis.
A situação tem gerado indignação entre os cidadãos, que consideram comprometido o direito de acesso aos cuidados de saúde. Para muitos, a falta de medicamentos afecta sobretudo os grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e doentes crónicos, que dependem de tratamentos contínuos para controlar as suas patologias uma realidade que evidência um problema que se repete diariamente e compromete a qualidade da assistência prestada aos utentes, visto que para muitos deles, a consulta médica termina com um diagnóstico e uma receita e como consequência, a esperança depositada no sistema de saúde são frequentemente frustrados pela indisponibilidade de fármacos essenciais para tratamento.
Alguns cidadãos entrevistados pelo IsocNews, afirmam que medicamentos destinados ao tratamento da malária, hipertensão arterial, diabetes, infecções respiratórias e outras patologias têm estado indisponíveis durante longos períodos e a consequência é imediata: tratamentos interrompidos, doenças agravadas e famílias obrigadas a suportar despesas que excedem as suas possibilidades financeiras
Paulo Inácio tem um problema sério de coluna e hipertensão. Diz que está há uma semana sem remédio e não consegue os medicamentos nas farmácias privadas devido a situação financeira. “Somos atendidos pelos médicos, mas, quando chegamos à farmácia, dizem-nos que os medicamentos acabaram. Sem dinheiro para comprar numa farmácia privada, resta-nos esperar ou abandonar o tratamento”, lamentou.
Inácio acrescenta que “nós somos obrigados a recorrer às farmácias privadas, onde os preços são elevados e incompatíveis com a capacidade financeira da maioria das famílias”. O interlocutor avança estar indignado com a situação e releva estar a descartar os serviços públicos para aderir medicamentos tradicionais e pede uma solução urgente,
“Por isso, muita gente hoje em dia não vai ao hospital, até pode sentir muita dor, ficamos indignados porque nos falam está aqui a receita sabendo que não existe nenhum medicamento lá [na farmácia]”, indaga a fonte. Aliás, Paulo Inácio relata que os profissionais da farmácia nas Unidades Sanitárias chegam a indicar farmácias onde o medicamento pode ser adquirido.
Helana Tuaibo e Saide Ndala outras cidadãs que interpeladas pela nossa equipa, uma delas a voltar do hospital onde procurava tratamento para a sua filha que se encontra doente, relatam que a situação nos últimos dias agravou-se.
“Quando viemos aqui hospital a maior parte da medicação necessária é dita como inexistente, e nos falam temos que ir comprar nas farmácias privadas, com que dinheiro vamos comprar os medicamentos nas farmácias privadas vamos morrer em casa só”, lamentou Helana Tuaibo.
Mãe de dois filhos, Tuaibo conta que um dos quais ficou doente recentemente e quando procurou os cuidados de saúde não teve acesso aos fármacos para atenuar a dor de cabeça. “Esta não é primeira vez, levei meu outro filho ao hospital na semana passada e voltei sem medicamentos, tive que recorrer medicamentos tradicionais para ele se curar”, frisou a interlocutora.
Saide Ndala mãe de uma criança acrescenta que a população está indignada e tem estado a descartar os serviços públicos e aderir as vias tradicionais devido a este problema. “Quando vamos ao hospital sempre não há medicamentos, não é só de dor de cabeça, são vários mas encontramos nas farmácias privadas agora porque nos dão a receita sabendo que não há medicamentos lá” questionou frisando que nos mesmos hospitais, os pacientes são recomendados para que se dirijam a farmácias privadas, onde por diversas vezes consideram que os medicamentos encontrados são desviados dos hospitais públicos.
Autoridades admitem falta de paracetamol nos hospitais
Perante a situação, a Porta-voz da X Sessão Ordinária do Conselho de Representação de Estado, Lúcia Joaquim, reconheceu a existência do problema e explicou que a falta de medicamentos resulta de constrangimentos no processo de abastecimento, estando já em curso acções para a reposição do stock.
“O órgão reconhece e manifesta preocupação com a ruptura de paracetamol nas unidades sanitárias na província, mas o sector de Saúde está a envidar esforços no sentido de alocar stock deste fármaco às unidades sanitárias”, reconheceu
Entretanto, apesar da escassez de paracetamol em algumas unidades sanitárias, Lúcia Joaquim assegurou que os restantes medicamentos considerados essenciais continuam disponíveis, permitindo a continuidade da assistência médica à população “com destaque para anti-maláricos e anti-retrovirais, para fazer face às necessidades até três meses”.
A Activista Social Isabel Daniel, fala sem detalhes os perigos que este problema pode causar. “É pertinente e urgente intervir-se nisso. É necessário que se encontrem medidas porque os problemas são vários e podem ser crónicos para a população de baixa renda que recorre aos mercados informais”, explica.
Contudo, as garantias oficiais contrastam com os relatos dos utentes, que afirmam enfrentar dificuldades no acesso não apenas ao paracetamol, mas também a outros medicamentos indispensáveis ao tratamento de doenças frequentes. Esse desencontro entre o discurso institucional e a realidade vivida pelos pacientes reforça a necessidade de maior transparência na gestão do sistema de abastecimento.




