O eventual regresso do Fundo Monetário Internacional (FMI) a Moçambique está a alimentar um debate intenso entre economistas e representantes do sector privado, com expectativas divergentes quanto aos efeitos na estabilidade macroeconómica e no crescimento económico do país.
O economista moçambicano e membro da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), Egas Daniel, em entrevista ao ISOCNews falou sobre os alertas recentes do Fundo Monetário Internacional relativos à evolução da economia moçambicana num contexto internacional marcado por incertezas e pressões financeiras crescentes. A intervenção surge após o FMI ter advertido para o agravamento da crise da dívida pública, o aumento do custo de vida e as limitações no acesso ao financiamento externo, factores que, segundo a instituição, estão a condicionar o desempenho das economias da África Subsariana.
O representante do FMI residente em Moçambique, Olamide Harrison, enquadrou estas preocupações durante a apresentação do relatório de Perspectivas Económicas Regionais, numa mesa-redonda dedicada ao impacto do choque dos preços dos combustíveis. “Estamos perante um contexto de riscos elevados e persistentes para a estabilidade macroeconómica na região”, afirmou Harrison.
O responsável do FMI acrescentou que a combinação entre inflação elevada e pressões externas tem vindo a limitar a margem de manobra dos governos africanos. “As economias estão a enfrentar choques sucessivos que afectam directamente o crescimento e o equilíbrio fiscal”, disse. No mesmo encontro, realizado em Maputo, foi sublinhado o impacto da volatilidade dos preços dos combustíveis na economia moçambicana. “Os combustíveis continuam a ser um dos principais factores de transmissão da inflação para a economia real”, alertou Harrison.
Foi neste enquadramento que Egas Daniel, em entrevista ao IsocNews, analisou o significado destes alertas e a eventual implicação de um reforço da cooperação com o FMI. “Estas avaliações devem ser consideradas com seriedade, mas também com uma leitura ajustada à realidade económica do país”, começou por afirmar Daniel.
O economista reconheceu que os riscos identificados pelo FMI correspondem a fragilidades já existentes na economia moçambicana. “A dívida pública e a pressão sobre o custo de vida são desafios estruturais que não podem ser ignorados”, disse.
Ainda assim, Egas Daniel alertou para o risco de respostas políticas excessivamente centradas na austeridade orçamental e na sua visão, as “medidas de ajustamento mal calibradas podem ter efeitos recessivos significativos sobre a economia”.
O economista defendeu que qualquer processo de consolidação fiscal deve ser acompanhado de medidas que protejam a actividade produtiva e o emprego, não sendo justificado na sua opinião, tratar-se o orçamento do estado apenas como “um exercício contabilístico, sem avaliar os seus efeitos económicos e sociais”.
Egas Daniel sublinhou que a economia moçambicana continua altamente exposta a choques externos, sobretudo no sector energético e no financiamento internacional o que exige políticas internas mais robustas e consistentes para lidar com a situação. O economista acrescentou que o investimento público desempenha um papel determinante na dinamização da economia nacional, e “em muitos casos, o investimento público continua a ser o principal motor de actividade económica”, disse.
O regresso do FMI à Moçambique
Quanto ao eventual regresso do FMI a Moçambique, Egas Daniel prevê um reforço a credibilidade macroeconómica do país, embora tenha sublinhado que esse efeito não é automático sendo necessário que as condicionalidades associadas aos programas de ajustamento devem ser analisadas caso a caso.
O economista defendeu uma abordagem gradual e faseada às reformas económicas, de forma a evitar choques bruscos na actividade produtiva. “As reformas devem ser implementadas com equilíbrio, para não comprometer a estabilidade social e económica”, disse.
Egas Daniel destacou também o papel estratégico dos investimentos no sector energético como potencial motor de crescimento futuro embora existam altos riscos de uma dependência excessiva ligadas aos megaprojectos de gás.
O economista concluiu que o debate sobre o regresso do FMI deve ser conduzido com rigor técnico e equilíbrio social. “Precisamos de decisões baseadas em análise séria e não em percepções imediatas”, disse.








